Paula Cristina Costa ou figurações do poema

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A poesia é uma outra linguagem ou, melhor dito, uma linguagem outra. Ao ser uma linguagem outra, isso significa que um poema, no seu engendramento, reclama do poeta uma consciência da linguagem, das palavras de que se faz um texto e é necessariamente um texto outro.

Não é simples jogo de palavras dizermos que o poema é uma linguagem outra, mais do que outra linguagem: o surrealismo inaugurou, na sequência do que o simbolismo-modernismo activaram, essa linguagem outra que se traduz em imagens com uma significação e, vendo bem, numa espécie de disfunção do sentido. Apesar de na poesia portuguesa dos últimos 30 anos as heranças do surrealismo e o diálogo com as estéticas da vanguarda ter sofrido como que um momento de suspensão, nem por isso deixaram de aparecer livros de poesia em que esse diálogo se reactiva e se reformula.

Três exemplos: a poesia de Golgona Anghel, feita de derrisão e dessacralização do que em tempos Melo e Castro chamou o “próprio poético”; a poesia de Nuno Júdice, em cuja narratividade o pensamento sobre a construção da escrita jamais deixou de convocar imagens justapostas, metáforas de matriz senão surrealizante, ao menos de uma ousadia a fazer lembrar Michaux; e, numa deriva onde se cruzam a santíssima trindade poética (amor, liberdade, poesia) e uma perseguição especulativa, a obra final de um António Ramos Rosa, a qual, já neste século encaminha o discurso para uma dimensão contemplativa (vejam-se livros como Volúveis Diademas, Os Animais do Sol e da Sombra ou O Aprendiz Secreto).

Os poemas que Paula Cristina Costa, professora e ensaísta, nos faz chegar neste seu livro onde o trabalho de mais de 20 anos de silenciosa escrita se recolhe, são ainda outro modo de falar com aquelas vanguardas. Publicado com a chancela das Edições Fantasma, a discreta e belíssima marca do editor, poeta e tradutor Carlos Ramos, Endless Road, se tem, por um lado, uma espécie de chave pop para nos poemas nos adentrarmos – a música dos Time Bandits, de 1985, percorre subterraneamente os textos que se sucedem como efabulações de um desencanto e de um desencontro –, pede-nos a permanente atenção quanto aos vasos comunicastes que certas imagens e motivos igualmente evocam ou convocam. A casa (tema e motivo ramos-rosiano vindo de livros dos anos 70 e 80), a laranja (que vem de Eluard, mas também de Herberto, mestre invisível na voz da autora), e o próprio poema (Júdice ecoa em inúmeros modos de textualização nestes poemas, mas também a memória de Mallarmé), eis os três eixos em torno dos quais todo o livro se estrutura.

Falei de desencontro e de desencanto, pois os poemas obedecem a esse movimento da memória de erros e de errâncias de um ‘eu’ a braços com essa “estrada sem fim” que, no limite, é a própria memória de uma vida poeticamente transfigurada. Não se trata, no entanto, de figurar o poeta, mas de figurar o poema e a acção de quem o constrói. Nota: a acção, o gesto, não a totalidade de alguém a quem chamássemos autor. O discurso na 3.ª pessoa – “ela”, “a mulher” – se ficcionaliza quem escreve, sobretudo ficcionaliza o escrito, o texto: “Esta laranja, a mão esquerda do desejo”, eis a figuração do poema, corporização do desejo (de amar e de ser-se amado, sem dúvida), mas desejo de escrita, primacialmente. O poema é, pois, a laranja, a casa, o corpo recordado, o corpo verbal a dominar, a desejar: “Eu canto-te, laranja da minha carne, fruto e fogo que me aquece / antes do estremecer do vulcão do poema depois da solidão das pedras.” Cantar, sobretudo cantar, escreveu Herberto. Mas em Paula Cristina Costa, ciente dessa tradição órfica, cantar não é só exaltar a descida a um abismo, ou às profundezas do fazer poiético.

Assim, o poema figura-se como “grito ardente”, a escrita percorre “os escombros ácidos deste corpo / os sulcos cristalizados do poema / e nas reentrâncias entre a vida e a morte” a “obscura lava” de que se faz o trilho das palavras, faz estremecer aquele próprio poético. Talvez por isso, ao contrário da dessacralização que lemos numa Golgona Anghel (ambas, na verdade, fazem do poema um modo de narrar as convulsões do corpo como poesia e da poesia como corpo), nunca o poema é na autora de Endless Road ironia, sarcasmo, ou forma de distanciamento em relação às magias que a palavra de poesia pode provocar.

Se Ramos Rosa escreveu “não posso adiar o amor para outro século”, Paula Cristina Costa responde com a severidade própria de quem se sabe escrevendo noutro tempo adverso à poesia, mas sem que tal autorize o riso escarninho, antes certo tom íntimo, de recolhimento, como se fazer o poema fosse, alquimicamente, fabricar no laboratório: “Não posso deixar apodrecer esta laranja / tenho de a vigiar para que a faca ocre do tempo não a oxide / para que o bolor não a visite antes da obra terminada.” O poema é, portanto, figurado como fruto, corpo, tempo reencarnado. Na sua “saborosa geometria” o poema-laranja, ou o poema-casa, ou o poema-corpo pode ser também – na sua viagem órfica ao interior da sua própria linguagem (a dimensão metapoética é muito evidente e une de forma coesa todo o livro) – figurado como uma acção tempestuosa.

Magnífico é o poema que transcrevo e solicita a recordação de grandes poetas da torrencialidade dessa razão apaixonada de que falou Manuel Gusmão: “Um sismo de grande dimensão abana e abre fendas na parede da casa / a mulher acorda e desliza sobre o veludo dos seus passos atentos / esculpindo nas sombras da noite as muralhas do seu horizonte / o seu olhar é a matéria do tempo volúvel que se inflama / e os seus gestos são uma tensão de acordes indecifráveis a ilusão de uma substância ardente / do seu corpo fendido desprendem-se murmúrios que repudiam as cintilações da noite / atingindo a inteireza da palavra a frágil simetria dos objectos / a casa é a morada do seu medo a solidão a porta fechada que impede o encontro / do movimento do seu corpo com a clareira de um acaso / em que a casa se transformasse / no assombroso segredo que habita o desejo do seu corpo.” Este poema, publicado inicialmente na revista Pena Ventosa, no início deste século traz já consigo uma noção de poética.

Certos vocábulos (sismo, fendas, o verbo “esculpir”, a imagem das “sombras na noite”, a expressão “substância ardente” e a fragilidade da palavra), se vêm de uma tradição órfica, de uma matriz que é tanto herbertiana como ramos-rosiana, ou derivam desse surrealismo que mergulhou nas águas profundas de uma poesia em debate com o real em ruínas (aquela meditação que fez de Júdice o representante final de uma espécie de onirismo e de especulação poética permanente), acabam por ser verdadeiramente palavras e imagens que pertencem ao universo de Endless Road. Melhor: palavras de uma poeta que não quis fazer tábua-rasa de um passado literário que conhece bem e é aqui, depois de mais de 20 anos de recolhimento, homenagem a mestres seus e à poesia, sua pátria soberana.

Professor, poeta e crítico literário

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico.

============2024 - OPINIÃO - Destaque (6299438)============

Nunca o poema é na autora de Endless Road ironia, sarcasmo, ou forma de distanciamento em relação às magias que a palavra de poesia pode provocar.”

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