Com a entrevista que deu a Maria João Avilez, Pedro Passos Coelho colocou-se, definitivamente, na linha de partida para a liderança do PSD e para uma candidatura a primeiro-ministro. Falta o tiro de partida para a corrida que terá de ser dado pelo PSD num qualquer congresso extraordinário. Passos Coelho foi claro na sua entrevista. Não há qualquer sombra no projecto que apresentou ao país. Goste-se ou não desse projecto, ficou expresso que o antigo primeiro-ministro quer federar a direita, quer uma coligação da Aliança Democrática com o Chega e a Iniciativa Liberal.
É um projecto que Montenegro não quis abraçar quando se apresentou a eleições. Como os caros leitores estarão lembrados, Luís Montenegro baseou a candidatura no célebre “não é não” que, em princípio, lhe terá conferido uma vitória curta nas eleições legislativas. E isto é uma contradição para Passos Coelho, que vem agora exigir a Montenegro que deixe de governar num permanente saltitar entre PS e Chega e assuma uma aliança com as forças à sua direita? Não, não é! Porque na cabeça de Passos Coelho esteve sempre a ideia de que, mesmo com risco de perder as eleições, Luís Montenegro deveria ter pensado no país e assumido um projecto maioritário que desse condições para efectivar mudanças em Portugal. Para Passos Coelho o importante é o país e não uma estratégia destinada a obter uma vitória eleitoral. “Que se lixem as eleições”, lembram-se?
Este incremento do protagonismo de Passos Coelho vai ser uma dor de cabeça para Montenegro. O PSD corre o risco de entrar num processo de convulsão interna. Pode acontecer um tsunami... Isto porque esta e as futuras intervenções de Passos Coelho vão pôr mais a nu todas as fragilidades do Governo. O clímax desse momento será a apresentação do estudo que está a ser preparado por Passos Coelho e Sérgio Sousa Pinto a pedido da Associação Comercial do Porto. Esse estudo vai ser um conjunto detalhado de medidas sectoriais, um autêntico programa de governo. Vamos então ver o que o governo de Montenegro poderia ter feito com uma maioria, se tivesse escolhido essa opção.
Será curioso analisar a atitude dos social-democratas com este protagonismo do seu antigo líder. O que dirá Cavaco Silva, que sempre foi um defensor de reformas que modernizem o país e o coloquem a crescer a 3 ou 4%? Como reagirão as figuras mais destacadas do universo social-democrata? O que dirão Ângelo Correia, Miguel Relvas, Fernando Negrão, Fernando Seara, and so on...?
Goste-se ou não de Passos Coelho, ele é um político que fez o que tinha de ser feito, doesse a quem doesse. Não hesitou em tomar todas as medidas mais impopulares para salvar o país da bancarrota e o colocar de novo num patamar de saúde financeira. Teve coragem! Não pensou na sua própria carreira política! Ganhou as eleições apesar das medidas impopulares que assumiu e foi afastado do poder. A vitória foi-lhe subtraída pelo projecto da Geringonça de António Costa.
Depois disso, Passos Coelho remeteu-se ao silêncio. Foi dar aulas para uma universidade em vez de reivindicar um qualquer cargo internacional que lhe desse conforto financeiro. Não fez pressão para obter uma posição na administração de uma qualquer grande empresa que lhe possibilitasse um chorudo vencimento. Pois bem! Goste-se ou não dele, há que admitir que não é todos os dias que se encontra um político que coloque o país à frente da sua carreira e dos seus interesses pessoais. Isto é uma raridade? Sim é! Passos Coelho vai, pois, andar por aí. Está a aproximar-se um tsunami político? Sim, pode acontecer!