O tema da chamada Inteligência Artificial dá pano para mangas. Há dias no programa da RTP-2 “E Agora?” tivemos um alerta que nos obriga a especiais atenções. Kenia Nunes lembrou um famigerado projeto Panamá que visaria reproduzir de forma destrutiva todos os livros do mundo de modo a aproveitá-los de forma abusiva, clandestinamente. Livros vendidos aos milhares, páginas arrancadas e digitalizadas, livros destruídos e reproduzidos numa prática autofágica. O parasitismo digital poria, assim, em causa os direitos de autor e a proteção da originalidade criadora. Isto significa que importa reforçar a proteção da autoria, em face desta estranha ameaça. A partir do momento em que o livro estivesse esgotado, poderia dispor-se dele sem limites. Arrancar-se-iam as suas páginas, que seriam digitalizadas para alimentar a suposta Inteligência Artificial. E quem refere os livros, poderá ainda pensar na música, nas artes plásticas e em tudo o que envolva criação humana… Pensar-se-ia em livros que desapareceriam para sempre e dariam lugar a uma tremenda eliminação da genuína autoria. Em suma, torna-se necessário prevenir este absurdo, garantindo que o domínio público não pode pôr em causa o direito de criação. As redes de leitura pública, as bibliotecas e centros de documentação serão a forma mais adequada para prevenirmos este perigo. O mal não está nas novas tecnologias, mas na sua corrupção. O potencial positivo da inovação deve ser valorizado. Mas devemos evitar que a cultura e a educação se tornem territórios da pura ilusão experimental. Uma Inteligência Artificial verdadeiramente educativa tem de se adequar ao nível de desenvolvimento humano, ligando o aprender a saber, a fazer, a viver com os outros e a ser.
Mário Lúcio de Sousa deu-nos conta da experiência que desenvolve na Comunidade de Leitura do Tarrafal e do seu efeito reprodutivo, pondo as crianças em contacto com o livro e com a narrativa, desde muito cedo. Com que entusiasmo o livro se torna meio privilegiado de aprender a brincar. E eis que educadores, professores e pais são chamados a fazer da leitura e das estórias uma companhia e uma ajuda. Patrícia Portela, ao recordar o seu Manual para Andar Espantada por Existir, grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, em que o poeta José Gomes Ferreira nos apontou o caminho de João sem Medo, o tal herói “valente e refilão, sem idade determinada nem feições fixas, a fim de cada um lhe desenhar o perfil e atribuir a idade que lhe desejasse”. E o drama de Goya em Hoje, 3 de Maio, vem à conversa, no momento trágico em que a vida humana surge reduzida a pó, como hoje infelizmente vemos em cada guerra das que não param, que põe em causa a esperança de que todos somos feitos. Nessa noite, tivemos um diálogo de claros e escuros, com a vitalidade do cineasta Basil da Cunha do filme Jacaré no mundo da Reboleira, em que várias culturas se cruzam na imaginação delirante, demonstrativa de que não há cultura sem encontro de mil diferenças, como está evidente nas canções de Milhanas. É bom voltar a ouvir A Gente vai continuar de Jorge Palma. As palavras são como as cerejas, puxam-se umas às outras, e fica como pano de fundo, a grande interrogação sobre o futuro das ideias e da criação humana nessa loucura de reunir milhões de páginas como se os seus autores nunca tivessem existido.