Para além da música: Jorge Palma

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Entre as letras de um lado errado da noite e as palavras íntimas de um eu que, no fim, exaltou a vida num álbum de título homónimo, Jorge Palma cantou e denunciou o clima concentracionário das cidades, ou dos sistemas totalitários. Liberdade, amor e poesia, a trindade surrealista, essa foi a sua trindade. 

Em 1985, no álbum O Lado Errado da Noite, essa razão de Estado é um animal perigoso, um regime policial:

"Eu vigio os teu passos/

Com toda a discrição/

Vejo o que fazes/

És o objecto principal/ da minha atenção//Eu sou o intruso/

Que a todo o momento/

Controla o teu/ pensamento//

Sou a razão de Estado/

Tenho o teu processo arquivado/

Sou a razão de Estado/ posso fazer-te passar um mau bocado".

Creio que esse horizonte de resistência nunca se dissipou na visão interventiva de um compositor que não foi só um cantautor. 

Não há, na verdade, um Jorge Palma, mas vários. Aquele que canta a asfixia quotidiana e aquele que canta a terna música 

"Encosta-te a mim / nós já vivemos cem mil anos / Encosta-te a mim / talvez eu esteja a exagerar / Dá cabo dos teus desenganos / não queiras ver quem eu não sou / Deixa-me chegar // Chegado da guerra / fiz tudo para sobreviver / em nome da terra / No fundo, para te merecer", recordando a Guerra Colonial. Há também aquele que, dum modo sábio deu a ver a outra face da própria condição humana, atento às tensões e aos desejos entre os amantes. Em Encosta-te a mim há também uma sábia modulação rítmica, subtis efeitos de rima, uma forma, se se quiser, de o letrista dispor no texto palavras que, por associação de sons ou por relações de semelhança de sentido, conferem enorme densidade poética ao mundo musical do autor de Frágil e de que a canção de 2007 é um momento altíssimo. 

Esse mundo vive de imagens nucleares em torno das quais a música (o piano no seu caudal melancólico) é outra voz, dado que as escalas, as harmonias, certas repetições melódicas ao piano como que dão corpo ainda mais grave à voz quente de Jorge Palma. Chamo a atenção para a combinação entre a letra da música de "O lado errado da noite" e a instrumentaçã aí patente. No exacto momento em que se refere Jonas e o fim da relação deste com a namorada "que lhe deu com os pés / pelo telefone" irrompe o solo - em pano de fundo - do saxofone de Jonas, tocando até ao fim dessa música onde se fala da história de Amélia, a rapariga que, em Lisboa, abandonados os sonhos de infância na província onde foi abusada pelo pai e pelo patrão de "uma maldita fundição",  entregará o corpo a esse Tóni, o que tinha todas as qualidades para ser rei da noite urbana onde corpos de vendem e compram. É o saxofone o fio doloroso que corre subterraneamente até ao desfecho e empresta o tom deceptivo acesse belíssimo texto todo realismo e funda análise da vida. 

Jorge Palma, compositor de enorme talento, com formação em piano clássico, não é, portanto, mais um compositor. Há na sua sensível atenção às palavras e à sua densidade, qualquer coisa que encontramos em raros músicos que fizeram a ponte entre a música e a poesia. Leonard Cohen, e Jacques Brel, também Nick Cave e Tom Waits, Chico Buarque, Bob Dylan, ou Jim Morrison. Mas ouvindo Palma, evoco sobretudo Serge Gainsbourg, porque, com laivos de Rimbaud, Jorge Palma igualmente soube cruzar cultura popular e cultura erudita. Um certo ar blasé era mais  que pose, era uma verdade vinda de uma forma pessoal de enfrentar os dias e as noites através de uma escrita cuja sensibilidade rítmica - um jeito de o coração bater, de os pulmões respirarem a existência - esteve sempre do lado gauche da arte. 

Não é só, porém, de simples marginalidade que devemos falar. Jorge Palma, sabendo-se à margem, foi marginal também por outro lado raro: dialogando com a literatura portuguesa, com ligação directa a um. Luiz Pacheco, por exemplo, a sua expressão poética foi uma forma de falar fraternalmente com os seus companheiros de música. Um estender de mão a toda a gente da cultura, como prova essa conversa que teve com Eduardo Lourenço depois de um concerto em Paris, vestia o músico uma T-shirt com a frase de Rimbaud, "Par delicatesse j'ai perdu ma vie". Cantar delicadamente e de forma voraz, não foi também essa uma estrada percorrida pelo cantor que pediu há meses a reinvenção de Abril? 

O caso de Jorge Palma é na nossa história musical, singular, ímpar porque, por fim, a sua música, no limite, não é essencial à sua  linguagem. Letras que vêm das ruas e se misturam com alusões cultas, as palavras sobrevivem quando lidas em voz alta. Muitas das suas letras serão poemas por isso mesmo: lêem-se e resistem à ausência do piano. Uma observação, no entanto: a força poética das letras ainda se eleva a outros patamares de beleza por causa das mágicas melodias que Jorge palma construiu. Ora devedoras de uma raiva por nunca se cumprir o sonho, ora fruto de estados de espírito onde adivinhamos certa resignação, certo fado lusíada, Palma foi um dos mais acabados intérpretes de um modo urbano e português de existir, arrastando para a nossa tristeza contentinha uma raiva que lhe veio do Maio de 68, desses anos 60 e 70, era das últimas utopias. Dispondo a seu favor "da eloquência do amor", ali mesmo à mão de semear por via de experiências-limite, o cantor de Estroina encarnou bem um certo espírito imediatamente pós-Abril que quis deixar de ser esse reino perdido, o de António Nobre (1867-1900), à esquina do planeta, reino de ambições frustradas.

Filho de uma revolução desiludida, de todos esses que nasceram para a revolução/evolução musical operada depois das canções de resistência de uma outra geração, a nascida vinte anos antes (Zeca, desde logo), Jorge Palma foi o mais original da sua geração porque somou ao risco poético de escolher estar à margem, exercendo uma rebeldia só sua, o rigor da construção tensa, criativa, evidente naquele que é para mim o seu poema maior: Estrela do Mar ("Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte / e em que o sono parecia disposto a não vir / fui estender-me na praia sozinho ao relento / e ali longe do tempo / acabei por dormir»). Versos, imagens que, se virmos bem, revelam a irradiação de um poder poético: as palavras numa conjugação perfeita com uma voz merencória, e que diz: «Não sei se era maior o desejo ou o espanto / mas sem que por instantes deixei de pensar / Uma chama invisível  incendiou-me o peito […]». No fundo, um trovador. O último trovador rebelde. Poeta? Sim, se por poeta entendermos essa capacidade de não deixar de sonhar uma Abissínia possível. A sua Abissínia.

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