Quando eu era criança, já não me lembro exatamente quando, mas há muito, aprendi que não se diziam palavrões. Claro que não me explicaram o que eram palavrões. Inicialmente pensei que eram palavras complicadas de escrever, assim como zaragatoa, abstinência ou frigorífico. Só compreendi que estava enganado quando disse uma palavra pequenina, só com duas sílabas, e o meu avô Pedro me castigou “brutalmente”, dando-me com o seu inseparável O Século desse dia, dobrado, na cabeça e ameaçando: “O menino não volta a dizer ordinarices, entendido?” (se fosse hoje teria sido detido e acusado de violência doméstica).Percebi então que um palavrão não era uma palavra complicada, mas uma palavra proibida. E, se soubesse, nessa época, o que era um sinónimo, teria concluído que era sinónimo de ordinarice.Fui aprendendo palavrões ao longo da infância e do princípio da adolescência até o palavrão cair em desuso - a ordinarice sobreviveu mais tempo. Vem isto a propósito - tudo tem de vir a propósito de qualquer coisa ou o mundo deixa de fazer sentido - de algo que li num jornal. Tratava-se de uma daquelas cartas dos leitores ao diretor que, sem o “encanto” da narrativa infantil e do vocabulário limitado e rasca das redes sociais, ninguém lê, da autoria de um climatologista (ou será climatólogo? Nunca percebi por que razão uns são psicólogos ou etnólogos, enquanto outros são cardiologistas ou criminologistas. Se ainda fosse criança, talvez julgasse que estes eram donos de lojas e os outros não).A carta do leitor tinha como objeto a palavra climatérico, que ele tinha ouvido num noticiário - da televisão, suponho, que é onde melhor se aprende a destroçar a língua portuguesa. A palavra tinha sido usada como sinónimo de climático, provavelmente porque quem a usou considerou que acrescentar-lhe uma sílaba era sinal de erudição.Dizia o leitor, num estilo pedagógico e indignado, que climatérico não era sinónimo de climático, antes significando respeitante ao “climatério, transição biológica associada à menopausa”.Não sou linguista e não me interessa aprofundar o tema. O meu ponto é este: se climatérico fosse sinónimo de climático, qual a sua razão de ser?Numa breve investigação que fiz recentemente, encontrei, em decisões judiciais, as palavras esquivamento, ajuizamento e lesionamento (entre outras). Se existirem, serão sinónimos, respetivamente, de esquiva, juízo e lesão. Não terão outra utilidade a não ser dificultar a compreensão do texto.E encontrei outras duas, ainda mais interessantes: assazmente e bastantemente. Estas não existem mesmo. Na verdade, acrescentar a terminação "-mente" a um adjetivo produz um advérbio: eficaz, eficazmente; nítida, nitidamente, etc. Acrescentar a terminação "-mente" a uma palavra que já é um advérbio produz uma tolice (que só se pode perdoar ao prefeito Odorico Paraguaçu, com o seu famoso "apenasmente"). Ou, se se preferir recuperar uma palavra com passado, este será o novo palavrão: uma palavra desnecessária, inútil e complicativa.