Os WC não enganam

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Um empresário português que vive há alguns anos nos Emirados Árabes Unidos (EAU) começa, inevitavelmente, a olhar para Portugal com outra distância. Não com menos amor. Talvez até com mais. Mas com a lucidez de quem, estando fora, repara em coisas que antes lhe pareciam normais.

E há uma coisa aparentemente simples que lhe tem chamado a atenção no Dubai: as casas de banho.

Pode parecer estranho começar uma reflexão sobre países, liderança e gestão a falar de WC. Mas talvez não seja. Nos EAU, entra-se num centro comercial, num aeroporto, num restaurante ou num edifício público e encontra-se quase sempre o mesmo padrão: espaços limpos, cuidados, funcionais e permanentemente acompanhados. Há pessoas discretas, mas presentes, a limpar, repor, verificar e corrigir. Nada parece abandonado à sorte.

Durante anos ouvimos dizer que “o algodão não engana”. Talvez hoje possamos dizer: os WC não enganam.

Uma casa de banho pública é um teste silencioso à forma como uma sociedade se organiza. Todos a usam: residentes, turistas, famílias, crianças, trabalhadores. E, por isso, revela muito mais do que higiene. Revela se há manutenção. Se há supervisão. Se alguém se sente responsável pelo espaço comum. Revela, acima de tudo, se existe uma cultura de execução.

É aqui que a comparação com Portugal e com parte da Europa se torna desconfortável. Habituámo-nos demasiadas vezes a espaços públicos degradados, casas de banho sujas, portas partidas, falta de papel, mau cheiro e ausência de responsáveis visíveis. Como se o descuido fosse inevitável. Como se a manutenção fosse um luxo. Como se a dignidade de quem utiliza o espaço fosse um detalhe menor.

Mas não é.

Um país que aceita o desleixo no pequeno acaba por aceitá-lo no grande. Quando ninguém responde por uma casa de banho imunda, mais tarde também ninguém responde por uma escola degradada, por um hospital em sofrimento, por uma estação mal conservada ou por um serviço público que trata mal o cidadão.

A boa gestão começa no detalhe. Não começa apenas nos grandes planos estratégicos, nas reformas anunciadas ou nos discursos sobre competitividade. Começa na capacidade de fazer bem, todos os dias, aquilo que parece básico: limpar, manter, fiscalizar, corrigir e respeitar.

No Dubai pode discutir-se muita coisa. Mas há uma lição evidente: a experiência de quem usa os espaços é levada a sério. A cidade é gerida com uma preocupação permanente pela imagem, pela funcionalidade e pelo conforto. E isso não acontece por acaso. Acontece porque há liderança, processos, pessoas, responsabilização e execução.

Portugal não precisa de imitar os EAU. Precisa, sim, de reaprender a cuidar de si próprio. A Europa também. Antes de mais uma grande estratégia, talvez precisemos de uma revolução da manutenção. Menos grandiloquência e mais detalhe. Menos resignação perante o que está sujo, partido ou abandonado.

E há ainda outra dimensão: a dignidade de quem cuida. Por trás de um espaço limpo há trabalhadores que merecem respeito, condições e reconhecimento. A excelência de um país também se mede pela forma como trata quem garante que as coisas funcionam.

Pode parecer provocador, mas é profundamente sério: a gestão de um país vê-se nas suas casas de banho. Onde há cuidado no pequeno, há esperança no grande. Onde há detalhe, há liderança.

Porque, no fim, os WC não enganam.

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