Os ‘tubarões azuis’

Guilherme d’Oliveira Martins

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

Publicado a

Fica-nos na memória a épica prestação da equipa de Cabo Verde na fase final do Campeonato do Mundo de Futebol realizado nas Américas, batendo-se com as equipas mais experimentadas e com provas dadas, antigos Campeões do Mundo, dotados dos nomes mais sonantes nas suas equipas.

O conjunto neófito não deixou o prestígio por mãos alheias. Basta dizer que nem no jogo derradeiro contra a Campeã do Mundo em título, a premiadíssima Argentina, a equipa vacilou, tendo obrigado ao prolongamento… O conjunto funcionou sempre. Se houve destaques individuais, o certo é que todos se integraram plenamente. O guarda-redes Vozinha destacou-se pela sua exibição, com uma responsabilidade decisiva. A sua atitude integrou-se, porém, sempre de modo exemplar no espírito do grupo. Entre o público entusiasta, alguém destaca a vontade de um povo que se defronta com todo o tipo de dificuldades – e dá o exemplo da cachupa.

Porventura há melhor caso de aproveitamento de tudo o que a natureza dá? Não há receita rígida, há a flexibilidade dada pelas circunstâncias, e assim as delícias da iguaria dependem da Providência e do toque individual de quem cozinha.

Essa a lição que os Tubarões Azuis nos deram, usando as qualidades de que dispunham, defendendo, atacando, mostrando qualidades em toques de génio e de senso comum… De súbito, uma desmarcação e um cruzamento abrem as possibilidades de aspirar ao impossível. É Cabo Verde que se manifesta, pondo na ordem do dia a demonstração de como um povo justo se afirma no querer e no sonhar. Lembramo-nos do Chiquinho de Baltasar Lopes ou do extraordinário movimento da “Claridade”, com os pés bem firmados na terra

Mário Lúcio de Sousa acaba de publicar o romance Afrocalipse (D. Quixote). É a cabo-verdianidade que se revela como demonstração de uma identidade multifacetada, em que, num cadinho feito de várias influências, encontramos a originalidade e a força de um povo que se projeta para além da sua própria singularidade. O romance apresenta-nos um tempo dominado pela insanidade, pela cleptocracia, pelo abuso, pela subserviência de um povo, pela fome e pelo desgoverno…

Contudo, há um eco de esperança que se faz sentir. As mulheres recusam o fatalismo do Afrocalipse. E numa suprema ironia, eis que os acontecimentos relatados tomam um sentido contrário ao que seria suposto. “É muito fácil escrever sobre violências, mas convenhamos, é incomparavelmente mais prazenteiro pichar uma narrativa sobre o amor.” E se numa sociedade qualquer fosse possível haver um movimento sério de mães determinadas em fazer da sociedade algo conforme com o senso comum? Eis que caem em si os homens “cabisbaixos e saudosos, todos abobados diante das suas avós que não viam há não sei quanto tempo”. E ouve-se uma mãe: “Gostam de rebeliões?, pois agora enfrentem as rebelioas”. E “três gerações de mães trajadas de longas saias de vinte tons trançados com missangas deixaram hoje as soleiras das suas casas, enfileiraram-se na velha estrada das sete bifurcações e deram início à longa marcha que as levará até ao palácio”.

Com flores e chás, a maior simpatia associa-se ao melhor gosto, feito verdade, amor e justiça, como só as mães e avós são capazes, cientes da importância do respeito, porque o inconformismo significa apenas querer pôr as coisas como devem acontecer…

Diário de Notícias
www.dn.pt