Os tribunais fecham os processos. As crianças carregam as consequências

Rute Agulhas

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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Há crianças que não se lembram de um tempo em que os pais se davam bem. Não têm memória de jantares tranquilos, férias em família ou conversas marcadas pelo respeito mútuo. Cresceram no meio da guerra. Uma guerra sem armas visíveis, mas feita de acusações, silêncios hostis, mensagens agressivas, processos intermináveis em tribunal e conflitos de lealdade. Para estas crianças, o conflito não é um episódio. É o cenário permanente da sua infância.

Ao longo dos anos, tenho ouvido muitos jovens que cresceram no meio de conflitos parentais intensos. Quando chegam à adolescência, as palavras de muitos deles tornam-se particularmente inquietantes: “nunca me vou casar”, “não quero ter filhos”, “as relações acabam sempre”, “amar é sofrer”.

E o pior é que não falam apenas de uma forma teórica. Falam daquilo que aprenderam e vivenciaram ao longo de toda a sua vida, na primeira pessoa.

As crianças aprendem sobre as relações muito antes de entrarem numa. Aprendem através do que veem, ouvem e sentem em casa. Assim, quando a infância é marcada por anos de conflito, desconfiança e hostilidade, a mensagem que recebem é poderosa: as relações são perigosas, instáveis e inevitavelmente dolorosas.

Muitas destas crianças tornam-se adolescentes que evitam o compromisso, que têm dificuldade em confiar nos outros e que olham para a intimidade emocional com receio. Alguns terminam relações ao primeiro sinal de desacordo. Outros mantêm-se em relações superficiais, para não correrem o risco de sofrer. Outros ainda acreditam que o amor é algo temporário, destinado a acabar mais cedo ou mais tarde.

É verdade que nem todas as crianças expostas ao conflito parental seguem este caminho. A capacidade humana de resiliência continua a surpreender-nos. Mas também é verdade que não podemos continuar a ignorar o impacto profundo e duradouro destas experiências.

Durante demasiado tempo, os adultos tranquilizaram-se com a ideia de que “os filhos habituam-se”. Mas não, não se habituam. Adaptam-se, sobrevivem, aprendem estratégias para lidar com o sofrimento. Mas isso não significa que fiquem indiferentes. E o preço dessa adaptação pode surgir muitos anos depois, na forma como se relacionam consigo próprios, com os outros e com o futuro.

Quando uma criança cresce sem experimentar relações seguras, respeitadoras e emocionalmente disponíveis, como pode acreditar que elas existem? Quando o amor é vivido como ameaça, manipulação ou sofrimento, como poderá sonhar com um relacionamento ou desejar constituir a sua própria família?

E é por isso que o conflito parental não termina quando termina um processo judicial. Continua a ecoar na vida dos filhos, nas relações que constroem, nos sonhos de que desistem e nas famílias que talvez nunca venham a constituir.

Os tribunais fecham os processos. E as crianças carregam as consequências.

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