Há 200 anos, em 24 de abril de 1826, milhares de artesãos de Lancashire e Yorkshire, em Inglaterra, revoltaram-se. Os tecelões manuais enfrentavam salários em queda, desemprego e jornadas prolongadas. Identificaram este inimigo: os teares mecânicos que permitiam aos capitalistas produzir mais, mais barato e com menos mão de obra. Grupos de trabalhadores percorreram fábricas e destruíram os teares mecânicos.Até 3 de maio, mais de 1100 máquinas foram inutilizadas. A repressão militar e policial, ao serviço do governo e do capital (hoje dir-se-ia “ao serviço da economia”), provocou mortos, detenções e condenações em tribunal.A Revolta dos Tecelões foi derrotada. Porquê? Conjunturalmente, porque os trabalhadores foram vítimas de uma repressão feroz. Estruturalmente, porque pouco podiam fazer perante o avanço tecnológico. Destruíram as máquinas, mas os capitalistas, sempre com dinheiro para investir, construíram outras máquinas.Essa vitória capitalista criou, porém, uma nova realidade social. A inovação tecnológica do século XIX concentrou nas fábricas um operariado conhecedor dos meios de produção. Os trabalhadores especializados dos teares mecânicos, que dominavam essa nova tecnologia, tornaram-se indispensáveis. Não eram proprietários das máquinas, mas eram os únicos que sabiam utilizá-las.Essa capacidade deu à greve um novo poder. Ao paralisarem fábricas que mais ninguém conseguia pôr a funcionar, os operários atingiam diretamente os lucros dos patrões e transformavam reivindicações individuais em conflitos coletivos, com uma capacidade de pressão e de resistência inéditas.A organização em associações, sindicatos e fundos de resistência permitiu-lhes enfrentar despedimentos e repressão. Ao longo do século XIX e no início do século XX, o proletariado lutou, muitas vezes com sucesso, por melhores salários, jornadas mais curtas, regras de segurança, proteção na doença e maior estabilidade no emprego. Conseguiram as vitórias que os tecelões manuais não puderam alcançar.O proletariado industrial tornou-se, assim, uma força capaz de influenciar a legislação e, inspirado por ideias sociais-democratas, comunistas ou anarquistas, pensar mesmo em sociedades alternativas ao capitalismo.No século XXI, a internet, os algoritmos e a Inteligência Artificial estão a reorganizar o trabalho com uma rapidez superior à da Revolução Industrial. Estas tecnologias facilitam despedimentos, reduzem salários, intensificam a vigilância e concentram ainda mais a riqueza em menos pessoas, tal como há 200 anos fizeram os teares mecânicos.As novas lutas sociais exigem um “operariado do século XXI” que compreenda, domine e organize coletivamente as tecnologias de que o capital depende. Todas as profissões precisam de conhecer os sistemas digitais do seu quotidiano e tentar identificar, neles, instrumentos capazes de aumentar o poder dos trabalhadores.Só quando o funcionamento – ou a paragem – das redes, dos algoritmos e da Inteligência Artificial depender da ação organizada do mundo do trabalho será possível impor ao capital salários dignos, horários justos, segurança no emprego e controlo democrático da tecnologia.Tentar impedir avanços tecnológicos, muitos deles benéficos para a Humanidade, que o capital, graças ao seu poder financeiro e político, acabará por alcançar, não funcionou para os trabalhadores do século XIX, nem funcionará para os do século XXI. Tentar destruir a máquina é inútil, o que é preciso é dominá-la.