Quando os gigantes tecnológicos se revezaram na semana passada a alertar que o fim do mundo estava próximo, que a inteligência artificial poderia apoderar-se da internet até ao final da década, um flashback levou-me a uma experiência artística na Bienal de Veneza, este verão.
As pessoas faziam fila em frente a um robô no Pavilhão da China. As suas pinceladas grossas percorriam o papel branco, produzindo caligrafia, uma técnica ancestral que dá nova vida às letras. Produzia repetidamente duas peças diferentes, intituladas “Sogno-Dream” e “Rio-Stream”.
Com luzes a piscar nos braços e no peito, levantava a cabeça e ficava a olhar friamente quando a obra ficava concluída em poucos segundos. A recompensa por testemunhar este espetáculo era possuir uma cópia.
Ao lado do robô, a gigantesca obra de caligrafia contemporânea do artista chinês Wang Dongling adornava a parede. O que o robô estava a imitar era, supostamente, a sua pincelada autêntica.
“A arte e a tecnologia manejam o mesmo pincel, personificando a ‘unidade do coração e da mão’ que está na própria alma da caligrafia chinesa”, lia-se numa nota ao lado. Como é que o robô unia coração e mão era um mistério.
A caligrafia remonta a cerca de 2000–3000 anos.
Jessica Hallett, curadora sénior de arte islâmica, arménia e chinesa no Museu Gulbenkian, cita um sábio do século IX: ‘’A caligrafia é uma joia moldada pela mão a partir do ouro puro do intelecto.’’ As belas formas de escrita ajudaram a disseminar crenças religiosas e a facilitar a comunicação até atingirem outro nível com a invenção da imprensa.‘’
A caligrafia é um ato humano e estético definidor. A invenção de Johannes Gutenberg da imprensa mecânica utilizando tipos móveis poderia ser considerada, nos termos de hoje, o primeiro “robô” de caligrafia’’, disse Hallett.
“O que o robô faz só pode ser decorativo. Quando é único, torna-se arte. Eu uso as minhas emoções e o meu cérebro quando faço caligrafia e, mesmo que escreva o mesmo conjunto de letras ou palavras, nunca será igual quando repetido”, disse a artista iraniana Somayeh Gholami, que vive na margem sul do Tejo.
As suas obras caligráficas, que podem exigir dias ou semanas de trabalho, combinam letras, formas geométricas, cores e inspirações dos azulejos portugueses.
A caligrafia tem sido uma forma de arte popular nas civilizações orientais e ocidentais e assumiu especial importância na cultura islâmica, onde as restrições limitavam a representação de figuras em contextos religiosos.
Calouste Gulbenkian, que nasceu em Istambul, no Império Otomano, acrescentou à sua coleção peças únicas com inscrições, obras persas e turcas dos séculos XII a XVIII, e peças de cerâmica e vidro adornadas com poesia e com o Alcorão.
Hallett afirma que mais de metade da coleção de arte do mundo islâmico de Calouste Gulbenkian contém palavras escritas em caligrafia árabe.
A partir do século XV, os calígrafos otomanos combinavam letras douradas para os monogramas imperiais dos sultões.
Um magnífico exemplo de caligrafia está associado à assinatura do fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal Atatürk. No entanto, a autoria permanece em disputa, estando o matemático arménio Hagop Vahram entre os nomes associados à sua criação.
Mantendo-se fora dos olhares do público, talvez por razões de segurança, Rama Duwaji, a ilustradora editorial e artista sírio-americana e esposa do presidente da Câmara de Nova Iorque, Mamdani, terá participado este mês num retiro para artistas em residência em Arcos de Valdevez, no Minho, para uma sessão de arte intitulada A Journey through Islamic Calligraphy, voltando uma vez mais a colocar esta forma de arte secular sob os holofotes.