Os reinos da estupidez

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Teria eu a mesma adição aos livros, na minha infância, se existissem nesse tempo todos os recursos de entretenimento, em aparelhos e écrans, que estão hoje ao nosso dispor? 

Penso que sim. Olhando para os meus filhos e netos, vejo neles uma presença ativa da leitura, ao lado dos jogos e dos tablets, que me tranquiliza. E penso na frase que li, de uma criança, reproduzida pelos orgulhosos pais: ler um livro é como ir de férias. 

A aprendizagem da vida e dos afetos faz-se também nos livros, nos grandes romances que lemos na adolescência e não esquecemos, nos personagens de ficção que nos marcaram como se fossem pessoas reais.  

Tenderá a decrescer essa nossa dependência da palavra escrita? Não creio. A televisão não matou o cinema, a internet não matou a televisão. E julgo que só a estupidez humana nos pode aniquilar como espécie, não a inteligência artificial.  

Um dos aspetos dessa estupidez, que está na raiz de muitos problemas que enfrentamos hoje, foi conceber a globalização como uma nova edição do pacto colonial: a China e a Índia, pobres e atrasadas, iriam ser “as fábricas do mundo”, deixando os países ricos e desenvolvidos dedicar-se a tarefas superiores. 

Resultado: desindustrializou-se a Europa, enquanto a China e a Índia se tornaram potências emergentes ou mesmo (no caso da China) uma nova superpotência. 

O erro radicou no eurocentrismo, que se recusa a ver nas outras civilizações outra coisa que não pobres e miseráveis que vivem na nossa dependência. E hoje os verdadeiros pobres e miseráveis do mundo precipitam-se em vagas de migração para a Europa, enquanto “as fábricas do mundo” aproveitam a desindustrialização dos antigos e orgulhosos senhores de impérios para produzir a mais baixo preço os bens e mercadorias que nos fazem falta.  

As guerras em curso no mundo atual são, como António Guterres justamente denunciou, consequência da mesma cegueira: num contexto de crise climática no seu limite e de empobrecimento extremo de vastas regiões do mundo, jogam-se jogos de guerra altamente mortíferos e destruidores, sem olhar aos riscos e aos perigos que estamos a atravessar. 

A esperança do mundo está naquelas crianças que vivem os livros como momentos de férias e de festa. Milán Astray, o general franquista, gritou a Unamuno: “Abajo la Inteligencia! Viva la Muerte!”. Ensinou-nos assim que só a inteligência nos poderá salvar de todas as redes que a morte tece com a nossa estupidez. 

E agora para algo completamente diferente. 

E em Portugal? 

Em Portugal vive-se um momento de judicialização dos conflitos políticos, que vem de trás, dos “casos” e “casinhos” nas instituições judiciais, que levaram à queda de um governo com maioria absoluta no Parlamento, até ao momento presente, em que se procura julgar “in absentia” o antigo Chefe do Estado. Assim se passa por cima dos problemas reais e se procuram bodes expiatórios para o descontentamento das pessoas comuns. E sabemos quais são as forças políticas que ganham com este estado de coisas.  

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