A minha coluna da semana passada aqui no DN estabeleceu um princípio: avaliar o extremismo pelo tipo de ameaça, não pelo eixo ideológico. Este artigo traz a evidência. E a evidência é desconfortável.Nos relatórios anuais da Europol sobre terrorismo na União Europeia, o terrorismo de esquerda e anarquista tem registado, em vários anos recentes, mais ataques completados do que outras famílias ideológicas. Em 2023, registaram-se 23 ataques completados atribuídos à esquerda radical, contra dois de extrema-direita. Em 2024, a tendência manteve-se, com 21 ataques atribuídos à esquerda e ao anarquismo e uma incidência residual da direita. O jihadismo continua a ser, em geral, menos frequente em número de incidentes, mas muito mais letal. Os dados existem. O problema é a sua escassa presença no debate público.A questão torna-se ainda mais sensível quando se olha para o antissemitismo. Relatórios internacionais recentes indicam um agravamento dos incidentes e mostram que parte relevante desse fenómeno já não se apresenta apenas sob formas clássicas de ódio racial, mas também sob uma gramática política de anti-sionismo radical. É nesse terreno que a extrema-esquerda e certos ambientes islamistas se encontram com mais frequência: não por identidade ideológica, mas por convergência de inimigos e de narrativas.Convém separar o que é religioso do que é político. Muitos movimentos islamistas radicais que operam na Europa funcionam menos como expressão religiosa do que como mobilização política. O anti-sionismo, o anti-americanismo e o anti-NATO surgem aí como linguagens de convergência. É também por isso que algumas franjas da esquerda radical encontram pontos de contacto com esses ambientes, ainda que sem uma aliança formal. O resultado prático é um ecossistema em que o antissemitismo se recicla com vocabulário novo e circula entre redes diferentes, mas com o mesmo efeito corrosivo.A história europeia já mostrou esse padrão. As organizações terroristas de esquerda do pós-guerra não nasceram adultas: cresceram em ecossistemas que primeiro legitimaram a ruptura e depois normalizaram a violência. A novidade contemporânea é que esse processo de legitimação já não ocorre apenas em círculos fechados de militância. Ocorre em ecossistemas digitais transnacionais, alimentado por conflitos externos que funcionam como catalisadores de radicalização e que aproximam actores que, noutra circunstância, dificilmente se reconheceriam como aliados.Portugal ainda não atingiu os níveis de Itália, da Grécia ou de Espanha nestas dimensões. Mas as condições para a sua expansão estão a formar-se: radicalização online, conflito no Médio Oriente como catalisador político e uma maior permeabilidade do espaço público à linguagem do confronto permanente. A questão não é apenas saber se estas dinâmicas chegarão com mais intensidade. É saber se haverá capacidade institucional para as reconhecer a tempo.Há ainda um problema mais incómodo do que os próprios números. O Relatório Anual de Segurança Interna de 2024 viu o capítulo sobre extremismos e ameaças híbridas ser suprimido na versão final. E isso coloca uma pergunta que vai além dos dados: o que se decide não dizer quando o assunto é politicamente sensível? Em matéria de segurança, o silêncio também é uma forma de escolha. E as escolhas têm consequências.