Há não muito tempo, tivemos entre nós um caso de dinheiro num envelope dentro de livros, com relatos de influências movidas em favor da construção de um centro de dados à mistura.Vem isto a propósito de um tema que tem vindo a unir republicanos e democratas, nas comunidades locais, de estados de uma e outra tendência política. E que será decisivo nas eleições midterm que se aproximam, nos EUA.Centenas de comunidades locais vetaram a construção de novos centros de dados na sua região. Vários governadores, e candidatos, apoiam uma moratória, enquanto o edifício regulatório não assegura que os potenciais benefícios serão partilhados com as populações.O que estão a percecionar estes movimentos de cidadania, bem como certos políticos norte-americanos - não obstante os esforços de Trump em torpedeá-los -, a que os políticos e os cidadãos portugueses ainda não são sensíveis?Primeiro, uma questão filosófica. Estes centros de dados são detidos pelas grandes empresas tecnológicas do mundo, na mão de um punhado (literalmente) de donos. Todos os ganhos são para esse punhado. Que querem os centros de dados, cada vez mais e maiores, para treinarem os seus modelos de IA para substituírem os seres humanos.Segundo, as promessas de emprego não se têm concretizado. A par de alguns postos de trabalho para eletricistas e seguranças, estes centros de dados não têm contribuído para qualificar emprego local ou para o gerar em grande quantidade.Terceiro, estes centros são consumidores de recursos (eletricidade e água) ao nível de uma nova média cidade. São poluidores, diretos e indiretos, do ar e da paisagem. Para serem abastecidos requerem a construção de novas centrais de produção de energia, cujos investimentos serão pagos através de impostos e preços mais altos aos consumidores.Visam destruir empregos, substituídos pela IA. Não pagam impostos. Beneficiam de isenções fiscais e de preços subsidiados para a energia e água que consomem. Geram pouco emprego local, destroem recursos públicos (ar, água e paisagem) e implicam novas centrais (combustíveis fósseis ou nucleares) que assegurem energia sem intermitências. Geram pouquíssimo valor acrescentado numa economia local, cujos recursos (e dinheiro dos impostos) seriam mais bem aproveitados de outra forma mais eficiente.Não estamos a falar de fornecer mais e melhor energia aos habitantes e empresas locais. Ou de preços mais baixos ou fornecimentos mais estáveis. Bem pelo contrário.Em Portugal, por enquanto, o debate continua ausente.