Os amanhãs já não cantam

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

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Paris, ma belle ville

Fine comme une aiguille,

Forte comme une épée,

Ingénue et savante,

Tu ne supportes pas l’injustice

Pour toi c’est le seul désordre.

 

Paul Éluard

Os jovens (e não só), que enchem as ruas e as praças das cidades europeias com o som e a fúria dos seus protestos, gritam-nos a raiva e a desilusão com as promessas não-cumpridas pelos governos, pela economias e pelas sociedades, que os deixaram abandonados e defraudados.

Toda a persuasão política assenta na promessa de um melhor futuro. Mesmo quem transfigura o famoso discurso de Churchill de “sangue, suor e lágrimas” em “baixa de salários, aumento de impostos, baixa do poder de compra”, tem alegadamente em vista um futuro utópico, em que o empobrecimento a que somos, para já, condenados se transforma, num vago futuro por definir, em prosperidade para todos.

É verdade que Churchill apelava à coragem do povo inglês, enquanto os seus imitadores por cá censuravam rispidamente um povo de “piegas”. Mas mesmo o discurso mais duro e intolerante não deixa de ter subjacente uma promessa de “amanhãs que cantam”, sejam comunistas, sejam neoliberais.

Ora a revolta em curso nas ruas do mundo nasce da consciência de que os amanhãs já não cantam, só nos prometem miséria, medo, desemprego e guerra. E este abismo entre as promessas dos políticos e a realidade à vista desarmada inspira uma revolta mais profunda ainda do que aquela a que Sartre apelava em 1974 num dos seus últimos livros, On a raison de se révolter. Uma revolta que não apresenta uma alternativa chave-na-mão, mas, como as nossas dores físicas, sinaliza uma doença e apela a um tratamento.

Graças aos grupúsculos de saqueadores, que se infiltram nestas manifestações (tal como se infiltraram nas comemorações da vitória do Paris Saint-Germain no campeonato de França), é fácil ao poder desqualificar e condenar estes acontecimentos, qualificando-os como banditismo. Mas em política a cegueira nunca compensou. O que está em causa é uma perspetiva de futuro que promete sangue, suor e lágrimas, sem abrir qualquer janela de esperança.

No século XVIII, iluminista e revolucionário, Saint Just, em França, e o texto constitucional, nos Estados Unidos, faziam da promessa de felicidade uma ideia nova para o mundo. Passados quase três séculos, nem uma tímida promessa de melhoria de vida para o futuro se abre neste momento histórico. Quem se pode admirar que as gerações para quem foi preparado este horizonte cinzento saiam para rua em dor e em revolta?

Destaquei na epígrafe deste artigo a cidade de Paris, mas a mesma desilusão e revolta ardem nas nossas cidades, por toda a Europa e não só. Saibam as forças políticas democráticas assumir frontal e corajosamente este descontentamento e livrá-lo de se entregar aos que recusam a liberdade e a justiça, e fomentam o ódio e a rejeição.

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