Os abusos das elites e o fim da privacidade

Como a manobra do PPE no Parlamento Europeu sacrificou o debate democrático. Só a resistência salvou a encriptação à última hora… para já
Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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A votação no Parlamento Europeu sobre o restabelecimento da derrogação temporária da Diretiva ePrivacy — o prelúdio do famigerado “Chat Control 1.0” — na passada quinta-feira foi muito mais do que um debate sobre segurança digital. Revelou como a União Europeia, corroída por um histórico e profundo défice democrático, conseguiu ir mais fundo e contornar a maioria dos seus representantes eleitos para impor o dirigismo tecnocrático de uma elite autoproclamada. Desta vez, ainda mostrou que a resistência técnica conseguiu impor limites ao poder, resta saber até quando.

Resumidamente: para viabilizar a prorrogação da vigilância em massa até 2028, a presidente do PE, Roberta Metsola, e o Partido Popular Europeu (PPE) – com o apoio dos socialistas – recorreram a um xadrez processual maquiavélico. Sob um regime de urgência que atropelou as comissões especializadas, inverteram o ónus democrático em sede de segunda leitura: a proposta do Conselho seria aprovada por defeito, a menos que uma maioria absoluta de 361 deputados a rejeitasse. O resultado foi uma aberração: 314 deputados votaram ativamente contra a lei, e apenas 276 a favor. Numa democracia liberal, a maioria decide. Mas no ‘politburo’ de Bruxelas, a minoria impôs o prolongamento do rastreio através de artifícios regimentais (não foram atingidos os 361 necessários e as “cadeiras vazias” são assumidas como votos “sim”).

Só que houve um golpe de teatro de última hora. Num ato de rebeldia tática, os eurodeputados conseguiram aprovar duas emendas estratégicas (com 369 e 362 votos) que excluem explicitamente os serviços com encriptação ponta-a-ponta (E2EE) deste regime. Ou seja, aplicações como o WhatsApp ou o Signal ganham assim um balão de oxigénio (temporário) com o texto modificado a ser forçado a regressar ao Conselho, num braço de ferro técnico que durará três meses.

De salientar que esta questão toda coloca-se porque o Conselho de Ministros da UE (o verdadeiro braço legislativo – não eleito diretamente – da União) deveria ter encontrado uma solução para garantir a segurança dos menores no mundo digital, nomeadamente no combate à pedofilia e crimes conexos, que não passasse por formas de vigilância universal (ideia já por duas vezes rejeitada no PE) e até agora não o conseguiu, ou não quis, fazer.

Argumentar que é possível compatibilizar vigilância e privacidade no meio digital com soluções técnicas revela ou ingenuidade ou desconhecimento (ou reserva mental). Objetivamente, fazer deteção de abuso infantil (CSAM) salvaguardando a E2EE e mantendo o client-side scanning (CSS) como linha vermelha é um trilema tecnicamente impossível. Se o serviço é verdadeiramente cifrado, os servidores apenas veem ruído. Analisar mensagens sem quebrar a criptografia exige inspecionar o ficheiro no telemóvel do utilizador antes do envio — o que é, por definição, CSS. Ao excluir a E2EE da lei, o próprio Parlamento admite que não há meio-termo: ou há segurança matemática, ou há devassa local obrigatória.

Os defensores da ideia vendem o hash matching (em que sistemas automáticos comparam automaticamente dados adquiridos no transmissor da mensagem com uma base de dados conhecida de “malfeitores”) como uma ferramenta cirúrgica, mas ignoram – propositadamente? – os falsos positivos que destroem vidas. É famoso o caso de “Mark”, o pai em São Francisco banido de toda a sua vida digital pela Google após enviar ao seu pediatra uma foto legítima da inflamação genital do seu filho. E há muitos outros (mesmo não ligados a crianças… recentemente, artistas ficaram sem vida digital porque as obras que carregaram para a sua nuvem “privada” foi identificada como pirataria…)

Há também (à esquerda) quem critique este sistema apenas por delegar funções de polícia a corporações americanas opacas que só têm fito no lucro. É uma miopia provavelmente ainda mais perigosa. No que toca ao fim da privacidade, quem é o operador é absolutamente irrelevante: como a História tragicamente demonstra, o Estado vigilante é o maior catalisador do totalitarismo que existe. Uma infraestrutura de vigilância estatal descamba, inevitavelmente, na asfixia da dissidência, na tirania e na morte.

A UE inverteu totalmente a pirâmide de Lincoln: em vez de um governo “do povo, pelo povo e para o povo”, temos o ditame descendente de uma burocracia paternalista que assume saber o que é melhor para os cidadãos. Os avisos de Margaret Thatcher no discurso de Bruges em 1988 revelam-se proféticos – o ‘politburo’ burocrático sem representatividade democrática está formado em todos os organismos da UE. Para já, a encriptação foi salva por uma emenda de recurso, mas enquanto a mentalidade de controlo imperar em Bruxelas, a nossa liberdade individual continuará por um fio.

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