Um Governo contra-relógio

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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O primeiro-ministro Luís Montenegro saiu do congresso do PSD com uma promessa que pretende marcar a agenda política dos próximos meses: oito reformas estruturais para enfrentar problemas que o país arrasta há décadas, da Saúde à Administração Pública, passando pela Habitação. O anúncio não surge por acaso. Depois do chumbo da nova lei laboral por Chega e PS, Montenegro precisava de mostrar que o Governo da AD não é imobilista, nem refém das circunstâncias e da sua condição minoritária. Precisava de recuperar iniciativa, reocupar o centro do debate e voltar a colocar o Governo no lugar onde se decide o futuro e não apenas onde se gere o presente.

Montenegro sabe que está num impasse. As sondagens mostram desgaste, a coligação governamental perdeu o benefício da dúvida e a perceção de paralisia instalou-se. As reformas surgem, por isso, como uma tentativa de reconquistar a confiança do eleitorado: medidas que produzam resultados concretos, que melhorem a vida das pessoas e das empresas, que devolvam ao Governo a narrativa da mudança. É uma estratégia arriscada, mas racional. Se as reformas funcionarem, Montenegro ganha tempo e autoridade. Se falharem, poderá tentar responsabilizar o PS e o Chega por lhe terem bloqueado o caminho.

Mas os riscos são evidentes. O primeiro é político: várias destas reformas estão longe de ser consensuais e enfrentam resistências profundas na sociedade portuguesa, incluindo entre o próprio eleitorado da AD, como ficou claro no debate sobre a lei laboral. O segundo é temporal: uma reforma da Administração Pública não se faz em meia dúzia de meses, nem uma reforma da Saúde produz efeitos antes de vários ciclos orçamentais. O Governo está numa corrida contra o tempo, enquanto PS e Chega afinam estratégias para um possível cenário de eleições antecipadas já no próximo ano. A margem de erro é mínima.

No PS, o ambiente mudou. O crescimento nas sondagens - alimentado pela fuga de eleitores do centro desiludidos com a AD - abriu o apetite para um regresso ao poder mais cedo do que se imaginava até há pouco tempo. José Luís Carneiro, antes criticado por alguns setores internos, é agora elogiado como o líder capaz de devolver estabilidade ao partido e ao país. A criação de um grupo de trabalho para preparar a estratégia económica, com nomes como Mário Centeno, António Mendonça, António Rebelo de Sousa, Pedro Siza Vieira, Manuel Caldeira Cabral, Fernando Medina e Ana Mendes Godinho, é um sinal claro: o PS quer apresentar-se como alternativa credível e pronta a governar. Mas esta estratégia também comporta riscos, pois se José Luís Carneiro se precipitar e levar o partido a jogo antes de estar preparado, pode comprometer o capital político entretanto conquistado. Para evitar isso, terá de resistir ao canto das sereias.

O Chega, por seu lado, tenta consolidar o seu eleitorado depois de ter capitalizado o chumbo da lei laboral, ocupando terreno tradicionalmente da esquerda. Ventura percebeu que o Chega precisa de um eleitorado estável, conservador, desconfiado das mudanças culturais e económicas associadas à globalização e avesso tanto ao progressismo identitário como ao liberalismo económico. É nesse espaço que o Chega tenta fixar raízes.

E, enquanto tudo isto acontece, Pedro Passos Coelho aguarda, eventualmente, a sua vez de entrar em campo. O tabuleiro está em movimento - e ninguém pode dar o jogo por decidido.

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