O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) foi apresentado como uma oportunidade histórica. Uma injeção financeira sem precedentes para modernizar o país, reforçar serviços públicos, qualificar infraestruturas e preparar Portugal para o futuro. Mas à medida que nos aproximamos dos prazos decisivos, impõe-se uma pergunta incómoda: estamos realmente a recuperar Portugal ou apenas a gerir expectativas?O discurso oficial continua a transmitir uma visão excessivamente otimista. Contudo, o país não precisa de otimismo abstrato. Precisa de precisão. Precisamos de saber, com rigor, o que é exequível nos meses que temos pela frente. Precisamos de transparência sobre o que está em risco, sobre as obras que podem não ficar concluídas e sobre as consequências financeiras de eventuais incumprimentos.A regra é clara, projetos não-concluídos poderão implicar a devolução integral dos fundos. Não falamos de casos pontuais. Falamos de dezenas de investimentos nas áreas da Saúde, cuidados continuados, respostas sociais, autarquias, escolas e centros de saúde. Muitas destas entidades já se endividaram para avançar com obras estruturais. Ficar com projetos a 70% ou 80% de execução e ainda ter de devolver financiamento europeu pode criar situações de insustentabilidade dramáticas.Há quem defenda novas revisões do PRR. E é verdade que algumas adaptações são inevitáveis, sobretudo perante acontecimentos extraordinários como as recentes intempéries que afetaram o país. Mas não podemos transformar a exceção na justificação permanente. A questão central é outra: Portugal estava preparado para executar este volume de investimento? A evidência mostra que não.Os problemas na execução dos fundos europeus não começaram agora. Ao longo dos anos, Portugal revelou dificuldades estruturais na absorção eficiente dos financiamentos comunitários. No caso do PRR, os níveis de execução continuam abaixo do desejável em várias áreas. O investimento público, que deveria funcionar como motor de transformação, permanece aquém das necessidades e das promessas anunciadas.“Recuperar Portugal” não pode ser apenas um slogan. Recuperar Portugal significa utilizar bem cada euro, cumprir prazos, garantir qualidade na execução e assegurar que os projetos respondem a necessidades reais. Mais do que recuperar, é preciso preparar Portugal, estruturalmente, administrativamente e politicamente para gerir investimentos desta dimensão.As recentes revisões associadas aos danos provocados pelas tempestades não podem servir para mascarar atrasos acumulados. A intempérie é um facto. Mas a incapacidade de executar atempadamente não pode ser atribuída exclusivamente às condições meteorológicas. Se a execução estivesse dentro dos parâmetros previstos, os riscos seriam hoje menores.O país enfrenta um momento decisivo. Ou assumimos com realismo os problemas e introduzimos mecanismos de acompanhamento mais exigentes, ou arriscamo-nos a assistir à devolução de verbas e à paralisação de projetos fundamentais. O PRR não é apenas uma linha de financiamento. É um teste à capacidade do Estado.Ainda vamos a tempo de corrigir o rumo. Mas para isso é necessário abandonar o discurso complacente e adotar uma postura de responsabilidade efetiva. Recuperar Portugal exige rigor. Preparar Portugal exige competência. E é essa a verdadeira questão que hoje se coloca. Economista e deputado do Chega à Assembleia da República