Quando “a cabeça puxa o travão de mão”: o lado emocional de um Mundial

Sónia Soares Coelho

Psicanalista e psicoterapeuta. Diretora Clínica da Mentanalisys

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O Mundial FIFA 2026 ainda não começou – será?

Para muitos dos seus protagonistas, o Mundial já está a ser jogado há muito tempo.

Tendemos a pensar os Campeonatos do Mundo a partir daquilo que é visível: os jogos, os golos, as convocatórias, os sistemas tácticos, os resultados. Contudo, quando observamos mais atentamente aquilo que acontece aos atletas nos meses que antecedem uma competição desta magnitude, percebemos que existe um outro Mundial — menos visível, menos mediático, mas não menos decisivo.

Um Mundial que se joga na mente.

As recentes declarações de Pedro Gonçalves oferecem-nos uma entrada particularmente elucidativa para esta reflexão. Ao falar do regresso após lesão, descreveu algo que qualquer clínico habituado a trabalhar com atletas reconhece de imediato: o momento em que o corpo parece preparado para competir, mas o psiquismo permanece em estado de alerta.

O corpo avança... a mente trava.

A imagem do "travão de mão" é peculiarmente feliz, porque traduz uma realidade quase sempre mal compreendida. A lesão não interrompe apenas a continuidade física do atleta; interrompe, também, a relação de confiança que este estabelece com o próprio corpo.

Antes da lesão, o gesto acontece, espontaneamente... Depois da lesão, o gesto é observado.

Antes da lesão, o corpo é vivido como aliado... Depois da lesão, pode tornar-se fonte de suspeita e insegurança.

Esta transformação não é irrelevante. No alto rendimento, a diferença entre “agir”, e “pensar excessivamente o gesto”, pode corresponder à diferença entre “chegar primeiro”, “chegar a tempo”, ou chegar tarde; rematar, ou hesitar; decidir, ou duvidar.

Quando isso acontece, não estamos perante uma perda de capacidade. Estamos perante algo mais subtil: uma perda de disponibilidade.

O talento permanece..., mas deixa de estar, inteiramente, acessível.

Nestas circunstâncias, aquilo que se designa, de forma simplista, por "falta de confiança", corresponde a algo mais profundo: uma quebra da crença.

A crença não enquanto ideia racional, mas enquanto experiência emocional e corporal de continuidade. A sensação de que o corpo responderá quando for convocado. A convicção íntima de que aquilo que foi treinado poderá emergir, naturalmente, quando o jogo o exigir.

Ora, um Campeonato do Mundo amplifica, exponencialmente, estas dinâmicas.

O Mundial não é apenas uma competição... é uma experiência psíquica.

Para os jogadores convocados, representa, frequentemente, o ponto mais alto de uma trajectória construída ao longo de décadas. Para aqueles que ficam de fora, pode representar uma das experiências de perda mais dolorosas da carreira.

Os atletas que ficam para trás...

Quando falamos dos ausentes, falamos de opções técnicas, ou circunstâncias físicas. Porém, falamos menos do trabalho psíquico que essa exclusão exige.

Desde muito cedo, o Mundial ocupa um lugar privilegiado no imaginário dos atletas. Não é apenas um torneio. É uma fantasia estruturante. Uma promessa. Um horizonte que organiza investimento, sacrifício e desejo.

Por isso, quando esse lugar se torna inacessível, o que está em causa não é apenas a ausência numa convocatória.

Aquilo que se perde não é apenas uma competição... perde-se uma narrativa possível sobre si próprio.

Do ponto de vista psicológico, estamos perante uma experiência de luto. E também perante aquilo que a Psicanálise designa por ferida narcísica: um confronto inevitável com os limites da omnipotência, com a contingência e com a descoberta de que nem todos os desejos encontram realização.

... e aqueles que lá chegam.

Os atletas que chegam ao Mundial não chegam ilesos.... Chegam “carregados”.

Trazem consigo as expectativas dos clubes, das famílias, dos patrocinadores, dos treinadores, dos comentadores, dos adeptos e dos países que representam.

Subitamente, o atleta deixa de competir apenas por si. Torna-se depositário de um investimento colectivo maciço.

Cada erro parece adquirir uma dimensão nacional... Cada falha parece exceder o próprio jogo... As vitórias transformam-se num acontecimento identitário.

Nesta medida, os Mundiais mobilizam emoções profundamente intensas. Aquilo que se joga não é apenas futebol.

Joga-se pertença.

Joga-se reconhecimento.

Joga-se identidade.

Joga-se a necessidade visceralmente humana de fazer parte de algo maior do que nós próprios.

Este Mundial acrescenta, ainda, uma dimensão suplementar: será o maior de sempre; decorrerá em três países distintos, com realidades socioculturais diferentes; e terá lugar num contexto internacional marcado por guerras, polarização política, tensões geoestratégicas e crescente fragmentação social.

Tal como acontece noutros momentos históricos, o futebol surge, simultaneamente, como espaço de rivalidade e espaço de ligação. Por um lado, pode amplificar identificações colectivas, nacionalismos e antagonismos. Por outro, continua a oferecer uma possibilidade rara:

- Transformar o inimigo em adversário;

- Substituir a destruição pela competição;

-Permitir que conflitos inevitáveis encontrem expressão dentro de um enquadramento simbólico comum.

É, precisamente, essa ambivalência que torna o desporto tão relevante, do ponto de vista psicológico e social.

Um Mundial nunca é apenas um conjunto de jogos. É um palco onde:

- Se cruzam desejos individuais e fantasias colectivas;

- Se encontram vulnerabilidade e grandiosidade;

- Coexistem medo e esperança;

- O sujeito se confronta com aquilo que sonha ser e com aquilo que, efectivamente, consegue suportar.

No fundo, talvez uma das maiores evidências psicológicas de um Campeonato do Mundo seja esta: o adversário mais difícil raramente está do outro lado do campo. As mais das vezes, está dentro de nós.

As famílias: os jogadores invisíveis do Mundial.

Existe ainda um outro grupo que participa, intensamente, num Campeonato do Mundo, sem nunca entrar em campo: a família.

Quando pensamos no percurso de um atleta de elite, tendemos a olhar para o indivíduo. Contudo, nenhuma carreira se constrói isoladamente. Por detrás de cada convocatória existe uma rede invisível de investimentos emocionais, renúncias, expectativas e sacrifícios acumulados ao longo de muitos anos.

Existem pais que atravessaram o país para acompanhar jogos de formação. Mães que organizaram horários, rotinas e ausências. Companheiros e companheiras que aprenderam a conviver com lesões, derrotas, mudanças de cidade, períodos prolongados de distância e a instabilidade inerente à carreira desportiva. Filhos que vivem entre o orgulho da exposição pública, a destrutividade dos comentários quando algo corre menos bem, e a experiência da ausência.

Do ponto de vista psicológico, as famílias não assistem apenas ao Mundial: investem-se nele. O atleta convocado não transporta apenas as suas próprias expectativas; transporta também uma parte dos desejos, dos receios e das fantasias daqueles que o acompanham. Por isso, a convocatória raramente é vivida apenas pelo jogador, sendo experienciada como uma conquista familiar.

O mesmo acontece com a exclusão.

Quando um atleta fica de fora, a perda não lhe pertence, exclusivamente. De forma mais, ou menos, silenciosa, ela repercute-se em todo o sistema relacional que o sustenta.

Há sonhos que se adiam.

Há expectativas que colapsam.

Há um trabalho de luto que, muitas vezes, é realizado longe das câmaras e dos comentários televisivos.

Também por isso, os momentos de maior glória e os momentos de maior sofrimento, no desporto, possuem uma intensidade emocional tão particular.

Nunca dizem respeito apenas ao presente.

Convocam anos de investimento afectivo.

Convocam histórias familiares.

Convocam gerações.

Aquilo que vemos no relvado é apenas a parte visível de uma realidade muito mais extensa: ao lado de cada jogador existe uma multidão íntima que também joga o jogo.

Por tudo isto, alguns dos jogos mais importantes de um Mundial acontecem muito antes do primeiro apito.

Por tudo isto, urge a procura de um contexto psicoterapêutico precoce que sustente estas composições emocionais, estes “mundiais internos” que se jogam, diária e inexoravelmente.

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