Como medir uma tragédia? Pela violência do vento, pela altura das cheias, pelo número de acessos cortados? Ou mede-se, também, pelo silêncio que engole aldeias isoladas, pelas falhas de eletricidade que mergulham comunidades na escuridão, pela água que cessa de correr nas torneiras e pela angústia de quem olha para o seu negócio - muitas vezes o único ponto de encontro social - e teme que nunca mais volte a abrir?Nas últimas semanas, Portugal enfrentou uma sucessão de tempestades cujos impactos humanos e materiais deixaram marcas profundas. Em muitos territórios - frequentemente longe do radar mediático - os danos foram avassaladores: infraestruturas destruídas, equipamentos irrecuperáveis, stocks perdidos, atividade suspensa. E no centro de tudo isto: pessoas. Famílias. Trabalhadores. Empresários. Comunidades inteiras a tentar sustentar o quotidiano num momento em que o quotidiano simplesmente deixou de existir.É nestes períodos que o valor da união se torna evidente. Não como palavra de ordem, mas como prática concreta. Quando a normalidade é suspensa e o futuro se torna incerto, a solidariedade deixa de ser um gesto simbólico para se transformar numa ferramenta de sobrevivência coletiva: apoiar quem perdeu, proteger quem está exposto, garantir que ninguém fica para trás.Recordo uma ideia poderosa que se tornou viral num discurso internacional: “As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu,” escreveu Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá. A frase referia-se à geopolítica, mas aplica-se com perturbadora precisão ao que estamos a viver internamente. Num país marcado por assimetrias territoriais e economias locais frágeis, as “potências médias” são, tantas vezes, os próprios agentes que mantêm a vida a funcionar: municípios, associações, empresas locais, bombeiros, voluntários, redes de proximidade. Se cada um agir isoladamente, com recursos escassos e respostas fragmentadas, seremos inevitavelmente empurrados “para o menu” - esmagados pela burocracia, pela lentidão, pela distância entre o anúncio e a execução.A vaga de tempestades deixou-nos, também, um ensinamento mais duro: não podemos continuar a viver “dentro da mentira”. Retomo aqui outra referência de Carney, evocando Václav Havel: o vendedor que expõe na montra um cartaz em que não acredita, apenas para evitar problemas. Durante demasiado tempo, repetimos rituais de normalidade, como se o sistema tivesse elasticidade infinita: como se as pequenas economias locais aguentassem tudo, como se as tesourarias suportassem mais um choque, como se a resposta pública pudesse seguir o ritmo habitual.Mas quando uma tempestade arranca telhados e, logo de seguida, submerge vales inteiros, torna-se evidente que há negócios sem margem financeira para suportar uma semana de portas fechadas; empresas sem capacidade administrativa para navegar processos complexos em plena crise; famílias que dependem daquele salário mensal; localidades cujo único apoio social tangível é, literalmente, o café ou o restaurante. Quando estes pontos de vida param, a comunidade colapsa - económica e emocionalmente.As medidas públicas são essenciais, e toda a ajuda é bem-vinda. Porém, em contexto de calamidade, o tempo é tão decisivo quanto o valor. Um apoio que chega tarde torna-se apenas um gesto burocrático perante uma realidade já devastada: o encerramento definitivo de um negócio, a perda de emprego, o esvaziamento de um território. A resposta tem de ser célere, clara e alinhada com o terreno - com o que está realmente a acontecer.Há ainda uma verdade incómoda: a devastação não respeita perímetros administrativos. Quem é atingido fora de mapas oficiais continua, ainda assim, atingido. Calamidade não se mede por despacho; mede-se por paredes caídas, por semanas de faturação nula, por ruturas de energia, água e comunicações. Se queremos ser justos e eficazes, os mecanismos de apoio não podem criar “vítimas de primeira” e “vítimas de segunda”. Têm de seguir a geografia real do impacto - o rasto deixado pelo deslocamento do anticiclone dos Açores, que abriu caminho a um autêntico “comboio” de depressões vindas das Caraíbas, percorrendo o país de norte a sul.É por isso que a resposta pública deve chegar de forma efetiva e célere a quem realmente dela necessita. Os apoios têm de abranger todos os empresários afetados, estejam ou não em concelhos formalmente declarados em calamidade, porque a devastação assumiu uma escala nacional. Todos integram o tecido económico e social do país e devem estar plenamente incluídos nos instrumentos disponibilizados.A ajuda precisa de chegar a todos de forma equitativa, porque os danos e as perdas foram transversais; não escolheram destinatários. No seu essencial, atingiram quem tinha menos margem para resistir.No fim, esta vaga de tempestades confronta-nos com uma escolha: continuamos a colocar o tal cartaz na montra, fingindo que “isto passa” e que o sistema aguenta, ou retiramo-lo, reconhecendo a verdade e agindo com coragem? Todos somos peças de coesão social e, juntos, somos mais fortes. Se não estivermos à mesa a decidir - e a assumir que a reconstrução passa por cada um de nós - a realidade decidirá por nós. Secretária-Geral da AHRESP