Quando não há uma visão estratégica, nem “mapa da mina”, os investimentos públicos em tecnologia no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), correm o risco de ser apenas direcionados para a digitalização dos processos existentes, sem uma verdadeira transformação digital e sem qualquer ganho real em eficiência e transparência ao serviço do cidadão..Os recursos financeiros do PRR, destinados à modernização do Estado, deveriam ter o potencial de inovação e transformação digital, mas, se não forem acompanhados de uma estratégia abrangente, acabam por servir apenas para perpetuar práticas burocráticas, sem questionar ou reformular os atuais processos, como no filme O Leopardo, de Visconti: “É necessário mudar qualquer coisa, para que tudo fique na mesma.”.Um dos maiores riscos de uma implementação sem estratégia, é que os recursos do PRR sejam canalizados apenas para grandes fornecedores, prioritariamente na compra de horas de trabalho, sem uma visão clara de como essas horas irão ser utilizadas para resolver problemas específicos ou alcançar objetivos estratégicos..Essa prática de comprar horas e “depois logo se vê” reflete uma ausência crónica de planeamento e arquitetura de Sistemas de Informação e pode levar a uma alocação irregular e ineficaz dos fundos, em projetos que se multiplicam de forma fragmentada, sem um fio condutor que os una, em torno de uma visão coerente de modernização..Há muitos anos atrás, dizia-se: “Quem compra IBM jamais será despedido.” Esse tipo de abordagem medrosa favorece os grandes fornecedores já estabelecidos e maioritariamente multinacionais, que têm a capacidade de fornecer serviços genéricos em larga escala, mas acaba por ser prejudicial para a inovação e para uma verdadeira transformação digital da Administração Pública..Como na gestão do território, se não existir ordenamento do espaço onde se vai atuar, o que teremos será apenas “construção clandestina e desordenada”. Sem uma estratégia que dê prioridade à identificação de áreas críticas que precisam de soluções inovadoras, as pequenas empresas, que são frequentemente as mais ágeis e criativas, são deixadas de fora e nunca terão hipótese de entrar neste mercado..Estas pequenas empresas poderiam oferecer soluções específicas e potencialmente mais inovadoras e eficazes, mas a falta de clareza sobre as necessidades da Administração Pública e a tendência para se “jogar pelo seguro”, contratando apenas grandes fornecedores, impede a sua participação num espaço desejavelmente arquitetado e regulado, onde poderia haver lugar para todos, com respeito e conhecimento da vocação específica de cada um, sem necessidade de se canibalizarem uns aos outros..Se quiséssemos que o PRR realmente servisse para impulsionar a inovação, teria de ser enquadrado por um planeamento estratégico amplo, transversal e robusto, que fosse muito para além da mera digitalização dos silos departamentais, em que os fornecedores apenas se limitam a “albardar o burro à vontade do dono” ao sabor do vento..Deveria haver um esforço consciente para repensar os processos, promover a interoperabilidade entre sistemas e garantir que os recursos fossem utilizados para criar um Estado mais eficiente, transparente e centrado no cidadão..Somente com uma estratégia clara e escrutinável seria possível garantir que os fundos do PRR fossem utilizados para transformar o setor público e não apenas para perpetuar a burocracia num novo formato..A verdadeira transformação digital, mais do que recursos, exige uma nova abordagem de gestão pública, com competências soberanas, visão, planeamento e coragem para quebrar práticas antigas, de forma a trazer valor para a sociedade.