Com a guerra da Ucrânia, e identificadas as vulnerabilidades de quase todos os países europeus em termos de capacidades de defesa, voltou-se a falar do regresso dos sistemas de conscrição, em termos de prestação de serviço militar, aquilo a que vulgarmente chamamos o Serviço Militar Obrigatório (SMO). As vulnerabilidades dos sistemas militares dos países europeus são essencialmente de três naturezas distintas: de recursos humanos; de equipamentos e armamentos militares (onde se incluem as munições); e da capacidade de produção de sistemas e plataformas de combate e da sua sustentação, através das designadas indústrias de defesa. Estas dificuldades, que não são novas e têm degradado os sistemas de forças em tempo de paz, são altamente condicionantes se tivermos de passar a uma situação de Crise ou de Guerra, não havendo, de um modo geral, a capacidade de mobilização adequada de recursos adicionais, sejam humanos, seja de armamentos, equipamentos diversos e munições, para se crescer para um sistema de forças militares de tempo de guerra..Mas centremo-nos no tema dos recursos humanos para as Forças Armadas, problema que tem diversas vertentes que importam focar. Como nos recordamos, no caso português, o serviço de conscrição foi descontinuado em 2004, para um serviço de voluntariado e de contrato que, de forma geral, não tem permitido suprir de forma adequada as necessidades do sistema de forças nacional, em especial ao nível das praças. Mas aqui, o problema não é da forma de prestação de serviço, mas sim da sua falta de atratividade, essencialmente fruto de não se ter acompanhado a evolução salarial de outras atividades concorrentes. Claro que há outras razões para a falta de adesão da juventude portuguesa, mas a principal é mesmo esta, dos salários não concorrenciais com os vencimentos dos postos e carreiras equivalentes, a titulo de exemplo o das Forças e Serviços de Segurança..Outra vertente tem a ver com a capacidade de mobilização de recursos humanos numa situação de conflito ou guerra. No processo de preparação para uma escalada dum conflito para uma situação de guerra, a mobilização é um dos problemas mais sensíveis e de resolução mais complexa. Basta vermos o que se tem passado com esta temática na guerra entre a Rússia e Ucrânia, com as dificuldades das lideranças políticas dos dois países em ativar os mecanismos de mobilização. A situação torna-se mais complexa quando o universo recrutável não tem nenhuma experiência militar anterior, como foi o caso da Ucrânia, que tinha um sistema de voluntariado e que, quando mobilizou os mais jovens, se deparou com a necessidade de lhes dar uma formação militar completa de alguns meses, o que atrasou a sua capacitação para integrar unidades operacionais, com as qualificações mínimas essenciais, o que teve impactos operacionais militares negativos..A necessidade de, em curto espaço de tempo, fazer crescer um sistema de forças de tempo de paz para um sistema de forças de tempo de guerra, pode exigir duplicar, triplicar ou quadruplicar os efetivos em algumas categorias (quase em todas). Esta necessidade surge pela urgência de constituir novas unidades operacionais, de se fazerem rotações dentro do dispositivo militar de combate e pela necessidade de substituir militares por motivos de baixas devidas às ações de combate. A tudo isto acrescem necessidades logísticas enormes (onde se inclui o serviço de saúde militar), que exigem uma imensa necessidade de quadros e tropas, a que se alia a necessidade de ministrar formação, treino ou refrescamento, ao efetivo mobilizado..A atual situação estratégica, no continente europeu, tem levado os responsáveis políticos e militares de quase todos os países a iniciarem a discussão de alterações ao modelo de serviço militar, seja para alterar para o modelo de conscrição, seja para expandir o modelo de conscrição que não seja universal, extensível às mulheres, como tem acontecido nalguns países, como é o caso da Dinamarca..Outra dimensão da conscrição é a criação de requisitos de cidadania, mais esclarecida e assertiva, nas juventudes dos diversos países. Os grandes apologistas do SMO sempre defenderam esta necessidade, com base no argumento de termos os nossos jovens, homens e mulheres, mais integrados numa sociedade mais resiliente, mais responsáveis, com maior espírito coletivo, menos individualismo e mais cientes das suas capacidades, em suma mais preparados para a vida, que é cada vez mais exigente e difícil. Neste caso, não está em causa diretamente nenhum princípio específico duma necessidade operacional militar, real ou potencial..Em tempo de crise, conflito ou guerra, existem necessidades de reforço de recursos humanos em diversas áreas não militares, como a chamada Defesa Civil, que incorporam necessidades de serviços de emergência, que requerem maiores ou menores competências especificas, que será necessário reforçar de forma rápida e organizada..Vemos, assim, que uma abordagem séria e honesta a este problema da reintrodução dum serviço cívico, mais ou menos militar, exige uma aproximação pelo lado da identificação dos problemas, naturalmente complexos, e das necessidades de recursos, que não só humanos, para emergências, sejam elas catástrofes naturais graves, crises, conflitos ou, no limite, a guerra. Só assim conseguimos perceber quais as melhores metodologias para assegurar a existência de recursos humanos qualificados para desempenharem funções essenciais ao esforço de guerra, sendo que esta será, de certeza, a situação mais exigente que ao Estado Português se pode vir a colocar e cuja probabilidade estratégica é, cada vez, mais elevada..No domínio mais específico das necessidades militares é fundamental que a componente operacional do sistema de forças assente em militares profissionais e contratados, fruto das tecnologias empregues e da formação e treino exigentes e de longa duração. Este elemento central do sistema de forças militar tem de ser suficientemente atrativo para os jovens portugueses, de modo a estar sempre preenchido. O problema da mobilização exige, como já vimos, uma reserva de recursos humanos mobilizável, com um mínimo de experiência militar prévia que possa, de forma rápida, dar corpo a um sistema de forças de tempo de guerra. No caso de Portugal, ao nível do Exército, existe uma reserva de mobilização de cerca de 15000 militares, o que será nitidamente insuficiente para se transitar para um sistema de forças de tempo de guerra..Todos sabemos que estamos a falar de assuntos sérios, que afetam a soberania nacional e a capacidade de respondermos aos compromissos do Estado, perante os portugueses e os aliados. Não há tabus em democracia e o debate é obrigatório, pois as emergências estratégicas a isso obrigam os responsáveis de todos os níveis, ou seja, todos nós. As decisões políticas adequadas exigem pensamento estratégico, num processo equilibrado de necessidade, oportunidade e responsabilidade, em linha com as avaliações técnicas, estratégicas e geopolíticas mais clarividentes. Para isso é necessário identificar primeiro os problemas e, depois, arranjar as (boas) soluções.