Em Portugal existem, atualmente, mais de 37 mil licenças de motoristas de TVDE (Transportes em Veículos Descaracterizados de Transporte de Passageiros) ativas. O número é do Instituto de Mobilidade e Transportes, que nota que são cerca do dobro aquelas que estão emitidas, mas que muitas não parecem estar a ser utilizadas. Destas mais de 37 mil licenças ativas (dados de 2025, os mais recentes), estima-se que cerca de 40% estejam a operar em Lisboa. Ou seja, algo como entre 14 a 15 mil motoristas. A juntar-se a este número, temos ainda 3.500 táxis licenciados na capital, o que significa que podemos dizer, com alguma certeza, que a capital portuguesa tem qualquer coisa como 20 mil viaturas a operar diariamente. Se quisermos ser conservadores, baixamos este número para uns 16 mil, por forma a considerar que haja quem possa estar doente, de férias ou somente numa pausa por outra razão qualquer.Lisboa conta ainda com uma [mais ou menos] ampla rede de outros transportes públicos (metro, autocarros, comboios…), que devia servir grande parte da população. Como o DN já escreveu, há uns meses, essa não é, infelizmente a realidade, e explica, aliás, por que razão os portugueses são dos que menos utilizam os transportes públicos entre os pares europeus. Não é apenas porque a rede é insuficiente, mas sim porque, na verdade, ela não é feita para servir os cidadãos e as suas dinâmicas diárias. Apesar da multiplicação de licenças para motoristas de TVDE, que enfurece taxistas, da manutenção das licenças de táxi e do alegado reforço dos planos de mobilidade, o que é evidente é que em alturas de maior pressão, Lisboa não tem como andar. Recentemente, o Tribunal de Contas Europeu avaliou Lisboa e concluiu que a capital Lisboa tem falhas significativas nos planos de mobilidade urbana, sobretudo por não integrar adequadamente deslocações entre municípios e que o facto de estes planos se centrarem em fronteiras administrativas, reduzem significativamente a eficácia e integração metropolitana. Quando comparada com os seus pares europeus, é facilmente ultrapassada por cidades como Praga, Lille ou Budapeste… Um outro estudo comparativo internacional, que englobou cidades como Lisboa, Madrid, Londres, Amesterdão, Hong Kong e Nova Iorque, concluiu que Lisboa tem baixa acessibilidade ao transporte público quando comparada com Madrid e Londres. Durante grandes eventos, esta deficiência é ainda mais evidente: o Rock in Rio apresentou um ambicioso plano de mobilidade, em conjunto com a cidade de Lisboa, mas a verdade é que as filas para aceder aos transportes públicos, sobretudo no final dos concertos, podem ser de quilómetros. No mesmo sentido, os acessos a locais como o aeroporto, estádios de futebol em dias de jogo ou mesmo estações de metropolitano ou comboios ficam totalmente entupidos assim que um evento chega à capital e causa mais pressão numa metrópole em constante esforço. Esta semana, tornou-se evidente que até as horas que antecedem os jogos de Portugal no Mundial de Futebol de 2026 disrompem uma rede já muito frágil de transportes públicos - insto-o, caro leitor, a tentar pedir um táxi, um Bolt ou um Uber na hora anterior à do início de cada jogo da seleção das quinas, em Lisboa, e a registar o tempo médio de espera.Os preços estão cada vez mais elevados nas plataformas de TVDE - o que levou à recente decisão do Governo de permitir aos táxis uma tarifa flexível em momentos de mais elevada procura, por uma questão de concorrência leal - e parece haver cada vez menos carros disponíveis. Aliás, a quantidade de motoristas e taxistas que cancelam viagens por razões que desconhecemos são cada vez mais.Sem surpresas, e para fazer face à inoperância dos operadores, os portugueses, que já são dos mais adeptos da utilização de veículos próprios, usam-nos cada vez mais (até porque o cenário da falta de transportes públicos fora dos centros urbanos é ainda mais gritante), entupindo as artérias já absolutamente congestionadas de uma capital onde a hora de ponta se transformou no dia inteiro.Em vésperas de mais um fim-de-semana de Rock in Rio, onde haverá ainda bom tempo e o início das férias de uma fatia significativa da população, será curioso ver como Lisboa, que Carlos Moedas continua a afirmar ser uma capital europeia de referência, vai lidar com o aumento da quantidade de pessoas a circular e a absoluta ineficácia de uma rede de transportes que, por mais barata que seja entre os pares europeus - e que não é, como também já escrevemos no DN - se torna incomportável porque, simplesmente, não serve a população. Que, afinal, é o seu único propósito de existência.