O Irão apressou-se na época a desmentir, mas durante o funeral de João Paulo II, em 2005, o presidente israelita cumprimentou e conversou brevemente com Mohammed Khatami, o seu homólogo iraniano. Uma conversa em farsi, afinal Moshe Katsav nasceu no Irão e até na mesma província, Yazd, de onde é oriundo Khatami. Este episódio em Roma, no enterro de um Papa, mostrou que o ódio atual entre israelitas e iranianos, tão exacerbado que faz temer hoje uma guerra generalizada no Médio Oriente, não é algo inultrapassável. Judeus e persas são os dois povos mais antigos da região e a Bíblia fala de Ciro o Grande com louvor. Mas nem sequer é preciso recuar milénios. Até à Revolução Islâmica de 1979, o Irão mantinha boas relações com Israel, com os dois países a serem sólidos aliados regionais da América. Os mísseis ontem disparados contra território israelita, o segundo ataque em poucos meses e pela segunda vez neutralizado pelo sistema antimíssil (mais do que o Iron Dome, também o David Sling e os dois Arrow) mostram que esse ódio existe, certamente no lado do regime iraniano. Mas também que esse ódio, que é uma das bandeiras dos ayatollas desde os tempos de Khomeini como Guia Supremo e também hoje com Khamenei, pode ser a perdição do regime. O Irão quis fazer prova de força, depois de ter visto o líder do Hamas morto em Teerão e o do Hezbollah morto em Beirute, mas deu sobretudo sinal de fraqueza. Ou o Irão não tem mais recursos para um ataque direto a Israel, ou então teme as consequências de um verdadeiro ataque, dada a capacidade de retaliação de Israel, onde também não falta na liderança quem odeie o Irão, o pais que financia, treina e instiga o Hamas, o Hezbollah e os Houthis. Ou seja, os que desde o 7 de Outubro estão conjugados contra o Estado Judaico. O sucessor de Khatami na presidência iraniana logo nesse mesmo ano de 2005, Mahmoud Ahmedinejad, distinguiu-se pelos apelos à destruição de Israel, a que chamava de “Entidade Sionista”. E foi fácil ver nele um antisemita, até porque todo o seu discurso era radical, mesmo sobre política interna. Mas não imaginemos automaticamente os iranianos como um povo antissemita. Visitei o Irão em 2018 , e estive em Teerão onde existem, a par das omnipresentes mesquitas, sinagogas, igrejas e templos zoroastristas. Calcula-se que nove mil judeus vivem hoje no Irão, mais do que em qualquer país árabe do Médio Oriente, mesmo que a comunidade, que chegou a ser de 100 mil, tivesse emigrado maciçamente para Israel depois de 1948, como aconteceu com a família de Katsav, e numa segunda vaga depois de 1979. Aos dois povos mais antigos do Médio Oriente pede-se agora sabedoria. Tal como em abril, é de esperar uma resposta de Israel. Em relação ao Irão, é importante que tal não leve a nova escalada, por muito que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu conte com a solidariedade dos EUA, que nunca perdoaram a sequestro da embaixada em Teerão nos primeiros tempos da Revolução Islâmica que derrubou o xá. Há algo que aproxima perigosamente os inimigos Israel e Irão: o nuclear. Israel não assume que tem um arsenal, mas é há muito dado como potência nuclear. Já o Irão, garante que tem um programa nuclear com fins meramente civis, mas poucos acreditam nisso, e há até quem pense que poderá estar muito próximo de ter a arma.