Homens que odeiam mulheres

Publicado a
Atualizado a

Nascem todos os dias formas cada vez mais apuradas de violência. Há muitos anos, antes da sofisticação tecnológica açambarcar as nossas vidas, as mulheres tinham de se preocupar com a sua segurança e salvaguarda em momentos como andar sozinha na rua à noite. Para de alguma forma assegurar que não seriam importunadas, refletiam exaustivamente sobre o que levar vestido, caso voltassem sozinhas, ou a pé, ou caso passassem por uma zona potencialmente perigosa. Outros espaços que poderiam ser violentos seria a própria casa, talvez o local de trabalho, e terminava aí. Hoje, aos espaços “tradicionais” de violência, foram-se somando outros - estes, com um alcance infinito, com provas altamente partilháveis e que dificilmente se podem apagar de forma permanente. Falo, claro, das redes sociais e do mundo online. Não só não resolvemos o que já existia como ainda acrescentámos novas formas de humilhar, de diminuir, de agredir. 

Uma em cada dez mulheres já foi vítima de perseguição, assédio virtual ou outro tipo de ciberviolência, diz o Instituto Europeu para a Igualdade de Género. Desta estatística faz parte Renata Cambra, dirigente partidária do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que se viu referida numa sequência repugnante de tweets. “E prostituição forçada das gajas do Bloco”, sugere Mário Machado. “Concordo. Incluam as do PCP, MRPP, MAS e PS”, acrescenta Ricardo Pais. “Tudo, tipo arrastão”, responde o militante neonazi. “A Renata Cambra terá tratamento VIP”, remata Ricardo Pais. Pelo crime de incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda, Mário Machado foi condenado a dois anos e dez meses de prisão efetiva. O curioso é que, nesta decisão, segundo a juíza, não pesou a sua “longa e persistente carreira criminal”, mas sim a ausência de qualquer manifestação de arrependimento. Diz a juíza que ficou clara a “falta de empatia” dos arguidos, “sorrindo em alguns momentos” perante Renata Cambra, que relatava o sofrimento vivido em consequência daquelas publicações. Isto é comportamento de quem se motiva pelo ódio e pela humilhação de mulheres e de minorias - já conhecemos o histórico ligado às pessoas racializadas. Mais: o advogado dos arguidos fala numa pena “demasiado pesada para sete ou oito frases desgarradas (...) e que não consideramos sequer como frases sérias”. Aqui, temos uma outra camada da violência de género: a desvalorização e o esvaziamento de poder às mulheres, colocando-as numa posição de submissão, de acatamento e de silenciamento. “Não era a sério, era só uma brincadeira, para quê reclamar?” Uma consideração feita da mesma massa da cultura do machismo e do assédio que nos trouxe até aqui: “Era só um elogio!” (Era um comentário sexual agressivo e não consentido), “Foi só um olhar!” (Foi uma expressão altamente intrusiva e inconveniente), “Foi só um toque!” (Foi uma mão no corpo sem ser solicitada, que a deixou petrificada e com medo de ser agredida sexualmente). Não, não foram só uns tweets: foram provavelmente pesadelos noturnos e diurnos, foram partilhas que terão originado mais insultos e ameaças, foram danos morais e emocionais que poderão levar anos a curar. Não falo de Renata Cambra, mas falo de todas as meninas e mulheres que têm voz, que terão cargos políticos e reconhecimento público, e que serão um alvo para todos estes homens que odeiam mulheres que se destacam. O “puseram-se a jeito” agora já não será expressão só usada para um decote ou para um consumo mais livre de álcool - será também usada para aquelas que estão nos holofotes públicos. Não, não haverá mais impunidade - não são as mulheres que têm de aprender a lidar, a aguentar, a relativizar. São os homens que têm de ser punidos pelos crimes que cometem. Da missão pública não tem de fazer parte a preparação mental para ser agredida online. A lei europeia, transposta para a portuguesa, já prevê a criminalização da ciberviolência de género. Quem for vítima, seja em que parte do país for, tem de ter onde se queixar, onde denunciar, receber apoio e depois seguir o processo que pode levar à condenação com pena de prisão. Perante a modernidade nos crimes, usemos a lei como arma. 
 

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt