Um grupo de amigos promove uma sessão evocativa em memória do padre Jardim Gonçalves, falecido no passado dia 22 de dezembro. A cerimónia decorre no Salão Nobre da Casa da Imprensa, Rua da Horta Seca, 20, em Lisboa, pelas 18 horas, a 27 de janeiro, dia em que completaria 93 anos.Agostinho José Luís de Jesus Jardim Gonçalves nasceu no Funchal, em 1932, no seio de respeitada família madeirense. Sua mãe, professora primária, o pai, comerciante, além dele, tiveram mais três filhos, entre os quais o Eng.º Jorge Jardim Gonçalves, fundador do Banco Comercial Português.Agostinho fez o curso geral do seminário na diocese do Funchal sendo ordenado presbítero em 1956.Vive os primeiros quatro anos de padre como coadjutor da paróquia do Machico, assistente diocesano da Juventude Agrária Feminina (JACF), professor no liceu e chefe de redação do Jornal da Madeira.Será, precisamente, no exercício destas atividades que o jovem padre dará conta da extrema pobreza da juventude e populações rurais madeirenses, realidade completamente alheia aos ambientes de que provinha.A circunstância de assistente da JACF levou-o a participar no congresso do Movimento Internacional da Juventude Católica Rural, realizado em Lourdes, maio de 1960, sob o lema “A Fome no Mundo nos seus múltiplos aspetos”. A prestação do jovem padre madeirense naquele fórum surpreendeu os participantes e chegou aos ouvidos do cardeal Cerejeira que logo se encarregou de o chamar para trabalhar no patriarcado de Lisboa.Aos 28 anos de idade, com apenas quatro de sacerdócio, a vida de Jardim Gonçalves dá grande reviravolta.Cerejeira entrega ao padre Jardim o acompanhamento nacional da Juventude Operária Católica Feminina e, logo a seguir, a Liga Operária Católica.Jardim Gonçalves empolga-se com o Concílio Vaticano II, toma a doutrina fixada pelos padres conciliares como bússola orientadora da sua vida pessoal e da ação pastoral que irá promover ao longo da vida.O trabalho realizado com operários e trabalhadores católicos, portugueses, nomeadamente a criação do Centro de Cultura Operária, a publicação dos Cadernos de Cultura Operária, na década de sessenta do século passado, granjeia-lhe dimensão internacional, sendo nomeado Assistente do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos, e, reconduzido para novo mandato pela Santa SéSolidário, sempre preocupado com problemas sociais, integrou o grupo de cidadãos que, em 1969, constituíram a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.Em 1972, esteve na criação do Grupo Base, na clandestinidade, e, dois anos mais tarde, participou no plenário fundador da BASE-FUT, na Costa da Caparica, organismos que tiveram a sua génese nos movimentos da Ação Católica de que era assistente.Reconhecendo o trabalho de evangelização do padre Jardim Gonçalves, em 1974, o Papa Paulo VI nomeou-o, a título pessoal, perito do Sínodo dos Bispos sobre a Evangelização no Mundo Moderno, de que foi secretário.Também os bispos franceses distinguem elevados méritos do padre Jardim Gonçalves ao nomearem-no, em 1978, encarregado da Missão para a América Latina, no Comité Católico Contra a Fome e pelo Desenvolvimento, com sede em Paris.Continuando a desenvolver profícua atividade pastoral-social, em 1988, o padre Jardim surge com um dos fundadores da OIKOS – Cooperação e Desenvolvimento, associação sem fins lucrativos, que assume como missão a erradicação da pobreza e redução das desigualdades, em favor de todas as pessoas terem o direito a uma vida digna.Dez anos depois, o cardeal-patriarca D. José Policarpo chama o padre Jardim para trabalhar consigo. Nomeia-o Diretor de Gabinete e, a seguir, responsável pelo Departamento de Comunicação e Cultura do Patriarcado de Lisboa.Essa atividade, realizada entre 1998 e 2012, é mais uma oportunidade para o padre Jardim Gonçalves afirmar extraordinárias qualidades pessoais no desempenho das funções que lhe foram confiadas, estabelecendo novas pontes de diálogo entre a Igreja de Lisboa, a cultura e o mundo contemporâneo.É a vida deste padre que viveu uma vida plena, dedicada à Igreja Católica e ao mundo do trabalho a que devotadamente se consagrou, também jornalista do vespertino lisboeta República, que um grupo de amigos se propõe evocar, dia 27 janeiro, na Casa da Imprensa, em Lisboa.Para que a memória não se apague.*José António Santos é jornalista