Em contra-ciclo

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“Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.”

Benjamim Franklin

(Depois de ter lido um texto que, à laia de despedida, criticava duramente Marcelo Rebelo de Sousa pelo que se afirmava ser a banalização da Presidência da República, mantenho que prefiro um homem de afectos a uma múmia, incapaz de mostrar sentimentos. Marcelo terminou com mais dignidade da que se lhe exigia e mais não se pode pedir agora.)

Numa outra sede e a propósito da segunda volta das eleições presidenciais, tive oportunidade de escrever que ganhou a decência, valor que não é por demais realçar atendendo às dificuldades sérias com que grande parte do território ainda hoje se debate, fruto não apenas das Tempestades como da tão inexplicável quanto inaceitável ineficiência de meios.

Pelos piores motivos, Portugal teve uma dupla oportunidade de mostrar que, nos piores momentos, é grandioso e um país de gente, não apenas generosa, como corajosa e não falou. De gente que dá valor à liberdade no que esta pode ter de grandioso mas, também, no que exige de responsabilidade.

Parece-me que não pode existir a menor discordância quanto às considerações que tenho aqui tecido a este título, principalmente quando vemos a solidariedade de que somos capazes e, ao mesmo tempo, percebemos que pessoas com vidas destruídas se deram ao trabalho de ir exercer o seu dever cívico e fizeram-no de uma forma expressiva.

De onde emerge, então, o título destas linhas?

Desde logo, chegar a um ponto em que o critério de escolha é o da decência diz muitíssimo do estado a que nos deixámos chegar e da fragilidade em que o Estado Social de Direito se encontra, alvo de múltiplos abusos que o colocam a ele (e, não e como deveria ser aos verdadeiros responsáveis) no pelourinho, à mercê de mercenários repletos de promessas vãs.

De uma vez por todas, o culpado não é o Estado de Direito mas os que dele se serviram em nome e proveito próprio, não sendo necessário mais do que fiscalizar e punir os excessos. Porém, sou daquelas que considera que Ventura nem o seu partido e respectivos membros consegue minimamente controlar, quanto mais o país. Sou também das que, tenho memória longa, se lembra (porque ainda consegui ler, antes destes restringir o acesso) do que este defendeu na tese de dissertação de doutoramento para vir, depois, a terreiro dizer o oposto para granjear votos ou do pseudo conto erótico que escreveu, num Português muito abaixo do sofrível, muito pouco consentâneo com idas à Igreja de São Nicolau.

Ventura pode enganar muitas vezes mas não consegue toda a gente ao mesmo tempo. E isto tem que ser dito.

Porque me honro de ter memória mas também porque gosto de pensar pela minha cabeça, ao contrário de parte assinalável dos designados comentadores políticos, qualidade que felizmente não reúno, não alinho no discurso de defender que a derrota de Ventura é menos estrondosa do que realmente o é, particularmente num momento em que o ressentimento com a inegável falta de meios de socorro poderia culminar num crescimento do designado voto de protesto.

Refira-se, desde logo, que Ventura perdeu em todos os distritos e em 306 dos 308 concelhos do País, designadamente nas zonas mais afectadas pelos temporais e nas quais a campanha populista e, dir-se-á, até de chantagem emocional foi muitíssimo mais intensa, como por exemplo Leiria.

Depois, de um total de 2.200.000 votos dos outros candidatos – e pese embora o silêncio de quem nunca deveria ter ficado calado – só conseguiu ir buscar menos de 1/5, ou seja, cerca de 400.000.

Seguidamente, refira-se que, mesmo numa 2ª volta, contando apenas com um adversário, Ventura teve menos 300.000 que a AD obteve nas últimas legislativas, falhando também o que era um dos seus confessados objectivos.

Ou seja e dito de outra forma, não há nada nesta segunda volta que permita a Ventura reclamar uma vitória, nem sequer moral. E, refira-se, num certo sentido, todos sabemos que moral não lhe falta, quanto mais não seja para reclamar vitórias onde o que existe é uma derrota colossal.

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