Os dados do BCE e do Banco de Portugal podem saltar-nos à vista pela dimensão – os portugueses compraram mil milhões de euros em produtos de baixo valor à China desde a pandemia –, mas o que é preocupante é o que as instituições apontam como causas para esta opção.O que, à partida, pode parecer uma opção consciente de cada consumidor é, na opinião das instituições centrais, um sinal do baixo poder de compra das famílias portuguesas (e gregas, por exemplo). Um artigo deste fim de semana do Dinheiro Vivo explica como foram estes movimentos de consumo nos últimos anos e por que deverão diminuir já a partir deste mês – olá, taxa de 3€! – e é um bom tema para nos motivar a uma reflexão mais profunda.Um estudo do Boston Consulting Group (BCG), divulgado no início do ano passado, dava conta de que os portugueses estariam disponíveis para pagar 10% a mais, em qualquer categoria de produtos, por opções mais sustentáveis.Ora, sustentabilidade é muito mais do que pegada ambiental, apesar de muitas vezes nos esquecermos disso: é também o cumprimento de Direitos Humanos, é uma boa governança das organizações, é transparência na origem e produção de cada material e produto… é um conjunto de critérios que garante que o bem que compramos respeita ambiente, pessoas e sistemas de uma forma holística.E não é surpresa para ninguém que os produtos oriundos de muitos países asiáticos, e não apenas da China, ainda falham em muitos destes critérios, sobretudo pela opacidade dos sistemas em que operam. Trabalho infantil, utilização de produtos nocivos à saúde, falta de condições para os trabalhadores, ausência de controlo sobre a origem das matérias-primas… muitas vezes é este o outro lado da moeda de uma blusa que custa três euros ou de umas calças que custam dez. No fundo, é só parar para fazer as contas e pensar: se estamos a pagar cinco euros por este produto, quanto é que chegou à mão de quem o fez, a milhares de quilómetros de distância? De que é que é feito? Em que condições? E como é que ao lado, um produto semelhante custa dez vezes mais? São só margens?Gostamos de pensar que sim – é mais fácil para validar a opção de uma compra mais barata –, mas todos sabemos que, genericamente, não..“As famílias portuguesas, fustigadas com o galopante custo de vida, que faz com que o mês sobre cada vez mais no fim de cada salário, compram o que é possível comprar”.Mas então, se os portugueses até estão disponíveis para pagar uma taxa extra de 10% por produtos mais sustentáveis, e se todos sabemos o que está por trás de muitos dos produtos que chegam ao mercado, como se explica que as importações de pequenos produtos oriundos da China tenham disparado mais de 200% entre 2022 e 2025, representando agora 5% de todas as importações de bens chineses, segundo dados da AICEP?É aqui que entra a resposta do BCE: Portugal é um país demasiado pobre para se poder dar ao luxo de não fazer esta opção. As famílias portuguesas, fustigadas com o galopante custo de vida, que faz com que o mês sobre cada vez mais no fim de cada salário, compram o que é possível comprar.E isto é válido não apenas para famílias, mas também para empresas, muitas das quais importam material chinês porque não têm estrutura que lhes permita optar por outros produtos – se o material é mais barato e serve o propósito, mesmo que tenha menos qualidade, é a opção possível.Ora, isto contribui de forma drástica para a falta de competitividade destas mesmas empresas, enquanto impacta negativamente a economia nacional, não apenas porque aumenta exponencialmente o volume de importações – também falamos sobre isso nesta edição –, mas também porque pressiona o comércio local e tenta construir com produtos de menor qualidade. Logo, estará a competir em preço e não em qualidade, e vai perder a corrida – precisamente porque os asiáticos já ganharam esse campeonato.Portugal não precisa, entenda-se, de deixar de comprar à China. Mas precisa de poder fazê-lo por opção e não por necessidade. No dia em que os portugueses – famílias ou empresas – tiverem poder de compra suficiente para tomarem a decisão de a quem comprar em liberdade, sabemos que estamos perante uma economia mais robusta e mais dinâmica. Atualmente, é apenas um país onde o preço é que vale, e as escolhas são feitas com base em pressupostos de curto prazo e não de investimento.Assim será difícil crescer – até porque, como diz a sabedoria popular, “o barato, sai caro”. Neste caso, já está a sair bastante dispendioso à economia nacional.