Há uns anos, uma pessoa conhecida pela sua capacidade de trabalho e respeitada pela sua inteligência invulgar começou um trabalho novo, e logo na primeira semana recebeu um documento cheio de siglas e referencias que só fariam sentido por quem estivesse por dentro do assunto. Depois de ler o texto várias vezes, escreveu “NPN”, assinou, devolveu o papel à procedência e esperou..Pouco tempo depois, o autor do documento bateu à porta e pediu ajuda para decifrar o misterioso “NPN”, que significava simplesmente “Não Percebi Nada”..Também o Banco de Inglaterra percebeu que a forma como os comunicados e informações para o público eram escritos resultava que poucos seriam capazes de os perceber e decidiu simplificar a linguagem, sem pôr em causa a qualidade do conteúdo. Passados uns meses, o Banco resolveu testar a eficácia da nova mensagem e concluiu que, mesmo depois de todo o esforço de simplificação, só quem tivesse passado 13 anos ou mais no sistema de ensino formal britânico seria capaz de entender o que o estava escrito nos comunicados “mais claros”..Finalmente, durante a pandemia, a Revista Nature – uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo – publicou um estudo que dizia que os grupos nas redes sociais que negavam a ciência e defendiam que as vacinas não têm utilidade nenhuma eram muito mais eficazes a comunicarem com o público do que os cientistas e médicos que diziam, numa linguagem técnica, hermética e obscura, que sem vacinas, as pandemias seriam muito piores e muito mais numerosas do que aquela que vivemos..Vem tudo isto a propósito do recente discurso de tomada de posse de João Cura Mariano, o novo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que reclamou o fim do que ele apelidou de “linguagem barroca” utilizada pelas magistraturas no nosso país..Siglas complicadas, definições complexas, referencias obscuras, multiplicação de regras, regulamentos e procedimentos aparentemente inúteis ou improdutivos são comuns em todas as profissões e todas as organizações. E todos nós já passamos pela aflição de não entendermos a linguagem usada em determinados contextos e, quem sabe, sermos olhados de lado pelos “iniciados”..É claro que o rigor na linguagem e a precisão dos conceitos é importante e muitas são as situações onde cada palavra e cada expressão tem um significado definido. E muitos são também os momentos onde todas as pessoas presentes partilham e compreendem uma linguagem comum, pelo que um esforço de simplificação é não só inútil mas contraproducente..À medida que as nossas realidades vão-se tornando cada vez mais complexas e as opções que temos que tomar mais difíceis, a tendência para complicar a comunicação parece crescer. Mas se queremos falar para lá dos muros do nosso pequeno mundo, convém que tenhamos em atenção quem queremos que nos oiça..A nossa sociedade, os nossos trabalhos ou as nossas famílias funcionam com base na comunicação e cada vez mais, todos somos obrigados a comunicar ideias, propostas ou instruções a públicos que não dominam alguns conceitos. Se não nos fazemos entender, como é que esperamos que nos entendam? As nossas democracias dependem da capacidade de cada pessoa olhar para a realidade que a cerca, compreender as opções que tem, distinguir umas das outras e escolher o que entende ser a melhor solução. Mas, para que isso aconteça, a linguagem deve ser um mecanismo de participação e não uma forma de exclusão..Professor Convidado IEP/UCP