Bolsonaro é capiofóbico?

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O que é capiofobiaCapio é a palavra em latim para pegar, apanhar, prender, origem etimológica de captura ou de cativo, logo capiofobia é o medo de ser preso.

Está escrito em itálico porque o termo, já comum em inglês, a partir do registo clínico de cidadãos, na maioria negros, que, mesmo sem cometer qualquer crime, sentem pânico de agentes, viaturas ou sirenes da polícia, ainda não existe em português.

No entanto, no Brasil, país onde 134 pessoas foram mortas pela polícia só em 2024, vai entrar rapidinho nos dicionários.

capiofóbico a que este texto se refere, entretanto, não é negro, pobre ou favelado, o perfil-base daqueles 134, mas um branco rico, privilegiado e poderoso ao ponto de organizar manifestações de capiofobia para multidões de crédulos e de coitados assistirem.

Jair Bolsonaro, o capiofóbico em causa, expôs no último domingo, em Copacabana, como expusera em fevereiro na Avenida Paulista e exporá em breve em Joinville, cidade no coração do bolsonarismo, o pânico de ser preso. No fundo, ele deita-se num divã, em forma de trio elétrico, e desfia os seus medos ao psiquiatra, em forma de apoiante crédulo e coitado. Os crédulos e coitados chamados a figurar nos atos servem, por outro lado, de escudo humano entre o capiofóbico e os investigadores que o cercam.

No roteiro do medo de Bolsonaro, cabe ao filho Eduardo - também capiofóbico, como o resto dos filhos homens do ex-presidente, todos acossados pela polícia por um cardápio variado de ilícitos h, fazer o restante do percurso: primeiro, foi ao Congresso dos EUA, a 7 de março, denunciar “o sistema totalitário em curso no Brasil” e denunciar “as atrocidades que têm acontecido na democracia relativa brasileira”. Conseguiu os seguintes resultados: 1) conhecer em detalhe a porta do Capitólio, onde o seu nariz ficou largas horas encostado antes de ser mandado embora e 2) deixar aquela quinta-feira de trabalho legislativo um pouco mais divertida para os congressistas.

O segundo passo foi já no Congresso brasileiro: na votação que decidiria sobre a soltura ou não do par deputado acusado de executar Marielle Franco, fez campanha pelo “Sim, solte-se”, porque, explicou, qualquer dia pode ser “um patriota” na mesma situação. Conseguiu os seguintes resultados: 1) perder a votação por 277 votos a 129; e 2) mostrar, aos olhos do Brasil, que está ao lado de bandidos, desde que ricos.

O pai, pelo meio, além das manifestações, ainda passou duas noites na Embaixada da Hungria, a sonhar acordado, porque não prega olho, com um asilo político de mão dada ao ídolo Orbán.

Mas Bolsonaro, do ponto de vista clínico, pode ser considerado um legítimo capiofóbico? Ou seja, se o hipocondríaco deixa de o ser quando, de facto, adoece, o capiofóbico, afinal, não é apenas aquele que, sem nada que o justifique, tem medo da polícia? Os demais não são meros criminosos assustados?

Acusado, via CPI da covid, de epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias, incitação ao crime, falsificação de documentos, charlatanismo, prevaricação e crimes contra a Humanidade e já inelegível, por oito anos, por abuso de poder, talvez Bolsonaro não seja um capiofóbico padrão.

Suspeito de falsificação do Cartão de Vacinação, de envolvimento em tentativa de golpe de Estado e de desvio de joias oferecidas ao Estado brasileiro, Bolsonaro está mesmo mais para mero criminoso assustado.

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