Alianças e aliados

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Após a noite de ontem, e como tem sido apanágio neste tipo de ato eleitoral, muito discorrerá acerca dos vários cenários possíveis, provavelmente até que um desses se concretize.

A conclusão mais consensual da noite passada é que a abstenção foi a maior derrotada. Este facto é da maior relevância porque o crescente afastamento entre os eleitores e os eleitos, e o desinteresse generalizado, pela política são elementos de elevado risco para as democracias.

Num dia frio, com condições climatéricas adversas e com futebol, os portugueses não cederam e foram às urnas. Esta “conquista” não pode passar sem referência, sobretudo no ano em que se celebram 50 anos de democracia.

Antes dos resultados, há que referir que não surgiu com evidência nenhuma força política nova. O primeiro reconhecimento é dirigido ao partido que venceu as eleições, ou seja, a coligação do PPD/PSD, CDS-PP e PPM, independentemente da curtíssima margem. Convém relembrar que por um voto se ganha e por um voto se perde.

Por outro lado, há que registar alguns aspetos importantes: o crescimento substancial de partidos mais jovens, como o Livre, que passa a ter um Grupo Parlamentar, ou o salto considerável do Chega. Este último venceu o círculo de Faro e elegeu tantos deputados como o PS ou a AD noutras regiões. Para além disso, mais de 18% de votos no Chega é algo que merece uma reflexão profunda por parte de todos os atores políticos.

Não é possível ignorar o resultado do Chega, mesmo que no passado outra força política -- que não o centro esquerda ou centro direita -- já tenha elegido 18% dos deputados. Para as memórias mais ávidas, o PRD alcançou esse feito e sabe-se como foi o desfecho a curto prazo dessa conquista.

Mesmo constituindo-se como importantes ensinamentos, as lições do passado não devem afastar a obrigação de uma análise fundamentada acerca das razões que levaram os eleitores a optar por tamanha viragem à direita.

Até ao presente, na sua generalidade, os eleitores sentiam-se representados pelos partidos tradicionais. Todavia, nesta eleição deram um sinal que já vinha em crescendo: o sentimento de representação esvaiu-se e assim se desmultiplicaram os votos.

O centro esquerda e o centro direita podem optar por uma de duas opções: tentar perceber o que se passou e almejar a reconciliação ou continuar como se nada fosse e esperar que no próximo ato eleitoral a expressão do Chega comece a diminuir.

Mesmo que na noite eleitoral os discursos dos líderes sejam de positivismo e de demonstração que ninguém vai capitular, que irão fazer uma análise profunda e depois catapultar os resultados da mesma para a melhoria de vida dos portugueses, não dá para ignorar o elefante na sala.

A união futura a demonstrar pelos partidos será crucial para alcançar a reconciliação com os eleitores, até porque dentro de três meses haverá outro sufrágio: as eleições europeias, onde o Chega e a Iniciativa Liberal concorrerão pela primeira vez.

Como é habitual, no período pós eleições, espera-se estabilidade e um futuro mais risonho. E não caberá à oposição assegurar tal desígnio. Será o governo o centro de responsabilidade para

apresentar soluções ao país, independentemente das concessões e negociações que terá de fazer por se encontrar em minoria.

Agora é tempo de avançar. Todos os atores, políticos e não só, deverão saber qual é o seu papel e cumpri-lo de forma responsável, respeitando a democracia e a liberdade dos resultados eleitorais que refletem a escolha do povo português.

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