Começo este texto declarando os meus conflitos de interesse: orgulho-me de trabalhar na indústria Farmacêutica e de dar o meu contributo diário para a nobre missão de salvar e acrescentar anos à vida. Esclarecida a minha posição de partida, confesso que foi com grande surpresa que há semanas assisti a um programa de televisão, recentemente reemitido, sobre um medicamento para tratar uma doença rara, intitulado “O preço da vida”. Fiquei atónito com a desinformação veiculada, de um populismo impensável. Assuma-se, porém, que nem tudo foi negativo já que o programa teve a virtude de revelar as dificuldades destes doentes e o radical impacto da medicação nas suas vidas..Uma das referências do programa foi a “demora de meses e anos para o medicamento chegar às crianças que dele precisam”, como se tal atraso fosse imputável à indústria farmacêutica. Não o é. Essa responsabilidade cabe à Autoridade do Medicamento, o Infarmed, e é importante notar que em Portugal este demora quase mais dois anos do que a sua congénere alemã a aprovar um medicamento inovador. Note-se, aliás, que um dos especialistas ouvidos pelo programa integra uma das comissões da Autoridade do Medicamento. Teria sido interessante ouvir os seus esclarecimentos sobre as causas desta demora..Outro dos argumentos utilizados é o de “um comprimidinho” custar 150 euros, segundo as palavras de outro especialista na área da saúde, que afirmou também que “o preço não reflete o valor do medicamento”. Afinal estamos a falar de um “comprimidinho” ou uma inovação terapêutica radical que salva-vidas? No programa, pasme-se, explica-se e calcula-se o preço (ou “valor”, misturando conceitos) de um medicamento inovador pelo seu custo de fabrico. Nada mais errado. Neste tipo de terapêutica o maior impacto do custo não está no fabrico, mas nas verbas despendidas em investigação e desenvolvimento que, em muitos casos, ascendem a quase mil milhões de dólares. Mais, em doenças raras como é o caso da referida no programa, existe um consenso alargado de todos os stakeholders que se o preço não for alto, não existe investigação, pois nunca se atingiria o limiar de rentabilidade. Afinal (e ainda bem!) existem muito poucos doentes com a patologia nele referida..O racional do “custo de fabrico”, como estes especialistas bem sabem, apenas serve para os medicamentos cuja patente já expirou, como é o caso dos medicamentos genéricos onde os custos da investigação e desenvolvimento já foram pagos. Na verdade, os lucros gerados por este e outros medicamentos destinam-se a pagar o investimento feito pelos acionistas, os salários, os custos protocolados com o Governo, os custos regulamentares, os impostos, os estudos clínicos e a inovação do próximo medicamento que salvará vidas. Ignorar esta realidade tem impactos brutais na investigação e desenvolvimento, na inovação distintiva e, por consequência, nas vidas salvas ou muito melhoradas em termos de qualidade de vida..Posto isto, é fácil concluir que o programa revelou um enorme desconhecimento sobre a Indústria Farmacêutica, o investimento no setor do medicamento e a forma como os medicamentos são aprovados e financiados..Há um equilíbrio essencial a alcançar que não pode passar por desinformação (como aconteceu) mas exatamente pelo contrário: o sistema tem de conjugar uma gestão racional dos recursos do Serviço Nacional de Saúde, equidade no acesso ao medicamento e a sustentabilidade do setor farmacêutico. Se assim não for, quem fica prejudicado são sempre os mesmos: as pessoas com doença!