O trabalho que publicamos nesta edição do Diário de Notícias, da autoria da jornalista Fernanda Câncio, é relevante pela forma como expõe a realidade vergonhosa das prisões em Portugal. O estado das prisões em Portugal é o retrato incómodo de um país que gosta de se considerar moderno e civilizado, mas que mantém um sistema prisional que viola princípios básicos de dignidade humana, com milhares de pessoas obrigadas a viver em condições péssimas a nível de higiene e segurança. O que explica esta situação é o desinteresse por parte dos sucessivos governos, até porque, ao contrário de mil e um grupos de pressão, os reclusos não têm influência política, económica ou social para poderem reivindicar melhores condições. Neste contexto, o sistema prisional continua a não receber o financiamento devido, mantendo milhares de pessoas em prisões sobrelotadas e, frequentemente, sem uma verdadeira estratégia de reinsersão na sociedade. As prisões portuguesas são, como disse recentemente Isaltino Morais, numa entrevista à SIC, um mundo à parte, onde os guardas são os verdadeiros detentores do poder sobre o que acontece dentro dos seus muros, enquanto os diretores são figuras distantes e com um impacto reduzido no quotidiano dos reclusos. Este não é um testemunho qualquer, mas sim o de alguém que passou pelo sistema prisional e que confirma aquilo que sucessivos relatórios nacionais e internacionais têm denunciado.Em primeiro lugar, este estado de coisas coloca em causa o bem‑estar dos reclusos, algo que deveria envergonhar um Estado que se apresenta como defensor dos direitos humanos e que assumiu compromissos internacionais claros para garantir condições dignas nas prisões. Não se trata de benevolência: trata‑-se de cumprir a lei, a Constituição e os tratados que Portugal assinou.Em segundo lugar, há ainda um equívoco persistente no debate público: a ideia de que investir na recuperação das prisões e na qualidade de vida das pessoas que lá vivem é o mesmo que adotar uma postura branda para com os criminosos. Esta visão choca com aquela que deveria a verdadeira razão de ser dos sistema prisional: recuperar as pessoas e, após pagarem a sua dívida à sociedade, reinseri-las, ajudá-las a mudar de vida e a encontrar uma forma de subsistência honesta, que faça com que não tenham a necessidade - ou a vontade - de reincidirem no crime. Sem esta visão - que muitos consideram ingénua, mas que nem por isso deixa de ser certa -, a prisão transforma-se num depósito de problemas que regressam inevitavelmente à comunidade, funcionando apenas como academias do crime, onde um jovem entra como pequeno delinquente e pode sair como criminoso perigoso. Não adianta falar de segurança pública e de reforço dos meios de financiamento enquanto se continuar a descurar este aspeto. Não pode existir segurança se tivermos um sistema prisional que produz reincidência e que desumaniza os reclusos. Não há futuro num sistema que falha naquela que deveria ser a sua missão.O que este trabalho jornalístico revela, e que o país insiste em ignorar, é que as prisões portuguesas não são apenas um problema de direitos humanos: são um problema de segurança pública e de responsabilidade política. A mudança terá de vir de quem governa e tem o dever de olhar para situação sem medo do custo político que terá de pagar.