A primeira regra do “boys club” da advocacia? Não se fala do “boys club” (e inventam-se protocolos).

Alexandra Bordalo Gonçalves

Presidente do Conselho de Deontologia de Lisboa da Ordem dos Advogados

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Celebrou-se ontem, com pompa e circunstância, o centenário da Ordem dos Advogados.

Usaram da palavra o Bastonário, os Presidentes dos Conselhos Superior, da Supervisão, do Fiscal e do Regional. Usaram não, beneficiaram. Porque numa Ordem em que a maioria dos seus membros são mulheres, nenhuma teve lugar à mesa!

Estranhei e indaguei.

Informaram-me ser o protocolo nacional que, curiosamente, não foi seguido nas comemorações já realizadas em Faro e Évora. Dá-se, portanto, a palavra aos órgãos nacionais e a um regional.

À Deontologia, nada. Talvez não seja um órgão considerado de relevância para o Senhor Bastonário. Questiono-me porque será…

Mas, há também um órgão nacional ausente. A Provedora do Destinatário dos Serviços. Será por ser do género feminino? Certamente será mais uma coincidência.

São, porventura, os meus olhos vidrados pelo exame da jurisdição disciplinar e da deontologia que me fazem ser tão judgemental

Certo é que, num ano em que se celebra o que de bom se fez nesta casa durante o último século, parece que a prioridade é presenças e organizações de eventos e não a alteração do Estatuto, conforme pedido e exigido pelos advogados que com as suas contribuições financiam estas comemorações. Quem sabe se o próximo passo não é criar um reality show como as irmãs Patrocínio e aí as publicações nas redes sobre presenças em eventos passam a ter #pub.

Com a consulta jurídica e o acto próprio escancarado e consentido a qualquer um, neste momento qualquer pessoa pode opinar, aconselhar, fazer contratos, sem nem jurista ser, desprestigiando a Ordem e desprotegendo o cidadão. Para cúmulo, passam a multar-se as partes por actos considerados dilatórios, como seja usar os meios de defesa legalmente previstos.

Well done!

Inquéritos que duram até passar a década sem acusação e depois são os advogados e seus clientes, no exercício da defesa, quem usa práticas dilatórias…

Enquanto isso, a Ordem consente, assente e regozija-se.

Enfim, se calhar até percebo porque não me deixam falar.

Enquanto isso, cita-se António Arnaut, Ary dos Santos e fazem-se odes aos Advogados que souberam fazer frente à ditadura (mas escondeu-se a placa com os seus nomes que foi inaugurada na entrada da Ordem nos 50 anos do 25 de abril, não fosse alguém sentir-se inspirado em seguir os seus passos).

100 anos passaram. Será de festejar a mera existência sem espírito crítico ou olhar para o futuro?

E não entendam este meu desabafo como uma “caça às bruxas” deste mandato… Mas que as há, há.

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