A especialização em medicina é um exercício de aprendizagem continua, semiestruturada e assente na prática clínica, mas beneficia de um ambiente hospitalar dinâmico e com oportunidades formativas diversificadas. Nos ecossistemas dos Hospitais Escolares (definidos aqui como a partilha do mesmo espaço físico e funcional por uma escola médica e um hospital) há alavancas organizadas e profissionais para dinamizar a educação e investigação médica, que são fundamentais para o crescimento dos jovens médicos a frequentar os internatos de formação específica (internatos da especialidade)..Mas que pontos concretos podem beneficiar a formação de um interno a trabalhar num Hospital Escolar? Comecemos por um aspeto muito pragmático. Nestas instituições a complexidade da medicina é maior, por serem centros de referenciação regional e nacional, permitindo a abordagem de situações frequentes, mas também de casos clínicos de alta complexidade, tornando assim a formação mais abrangente. Por outro lado, em consequência do ponto anterior, estes centros hospitalares possuem todas as valências médicas e os respetivos equipamentos tecnológicos, permitindo uma aprendizagem multidisciplinar, mais moderna e atualizada. Os Hospitais Escolares atraem também profissionais altamente qualificados, com forte orientação para o ensino e investigação, capazes de fornecer um feedback constante e exigente aos internos, envolvendo-os também em investigação médica e ensaios clínicos, treinando os internos em metodologia científica e pensamento crítico, potenciando o abraçar de carreiras académicas. Este ambiente oferece aos internos a possibilidade de eles próprios colaborarem no ensino, reforçando as suas qualidades de comunicação e liderança. Os internos têm também oportunidade de participarem nos múltiplos momentos formativos existentes nestas estruturas académicas, complementando a prática com a fundamentação teórica, criando redes de contactos e reforçando o currículo..Esta linha de argumentação implicaria que a prioridade de escolha formativa caísse inexoravelmente nas vagas oferecidas por Hospitais Escolares. Mas a realidade não é exatamente esta. Com frequência as primeiras opções de escolha de uma especialidade não são efetuadas nestes hospitais. Porquê? As razões são múltiplas. Em primeiro lugar estes hospitais de alta complexidade são avaliados e financiados não pela sua diferenciação de cuidados médicos, mas sim pelo volume de atividade, de forma equivalente aos outros hospitais, gerando um stress crónico de sobrecarga assistencial e de insuficiência financeira, que se reflete na qualidade do ambiente de trabalho. É fundamental salientar que tratar doenças raras e/ou complexas implica mais tempo de dedicação dos profissionais de saúde ao doente e maiores custos por doente. Adicionalmente, os profissionais destas unidades de saúde académicas são valorizados nas suas carreiras e remuneração por critérios essencialmente quantitativos e muito pouco qualitativos, não sendo adequadamente reconhecido todo o investimento de diferenciação técnica e científica. A isto acrescem falhas básicas, como a ausência institucional de tempo protegido para investigação, nos casos devidamente justificados, e um número.insuficiente de dias anualmente autorizados para participação dos especialistas em congressos para apresentações científicas, de forma a estarem adequadamente inseridos em redes internacionais da inovação da medicina. Este conjunto de limitações são fortemente condicionantes do objetivo final destas instituições, que é a prática de uma medicina complexa, capaz de abordar situações raras e de participar na linha da frente do desenvolvimento da medicina. Este ambiente adverso cria uma forte pressão sobre os especialistas de referência, que têm de gerir a formação de alunos, internos, investigação, doentes complexos, mas também um volume global de situações médicas mais simples, em igualdade com as outras estruturas hospitalares menos diferenciadas. Esta envolvente contagia o trabalho dos internos. É certo que terminam a formação com uma experiência única, mas à custa de uma grande intensidade e exigência, o que à luz de um balanço global do projeto de vida da nova geração de internos não faz sentido para muitos deles..Em conclusão, os Hospitais Escolares são estruturas sinérgicas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e das Universidades com condições únicas para uma carreira onde são promovidos o mérito científico e a diferenciação clínica e criam um ambiente ímpar de continuidade do ensino médico. Desde o ensino pré-graduado (o curso de medicina) ao ensino pós-graduado (a especialização). Há também uma continuação lógica entre os cursos de medicina e a profissão médica no seio do SNS, a transmissão de valores críticos para a carreira médica que se interpenetram na própria matriz do SNS, criando a oportunidade para o estabelecimento de compromissos contratuais associados a estímulos à fixação no SNS após o final do internato da especialidade. Este é o ambiente perfeito de treino de novos especialistas do SNS, contribuindo para uma mentalidade de reflexão e aperfeiçoamento contínuo e preparando os médicos para integrarem equipas multidisciplinares em centros de referência nacionais ou internacionais do SNS. Mas, para que isso seja uma realidade, é fundamental um tratamento diferenciado das regras de funcionamento, financiamento e reconhecimento profissional nos Hospitais Escolares. Se este esforço organizativo não for efetuado hipoteca-se o desenvolvimento da medicina portuguesa.