O presidente do Sporting, Frederico Varandas, deu ontem uma prova de fragilidade a que não nos tem habituado. .O fascínio dos adeptos do Sporting pelo seu presidente resulta - e merecidamente - dos bons resultados que tem obtido desde que está à frente do clube: dois títulos de campeão nacional, uma Taça de Portugal e duas taças da Liga. Até ver, estancou o declínio das contas do clube, inverteu mesmo essa linha e recuperou - com a sua aposta em Ruben Amorim, uma dinâmica de vitórias que há muito o Sporting não tinha. Mais: demonstrou coragem ao enfrentar Bruno de Carvalho, um homem que parecia empenhado em “deitar fogo a Roma”..As suas declarações no dia em que apresentou o novo treinador da equipa (o terceiro esta época a ocupar o lugar, após a saída de Amorim para o Manchester United e o despedimento de João Pereira) levantam muitas dúvidas que, se não forem rapidamente dissipadas, podem mesmo lançar uma sombra sobre o homem que entra para orientar a equipa: Rui Borges..Como líder, Varandas foi muito mais assertivo a assumir os créditos pela escolha de Ruben Amorim do que a reconhecer o erro pela escolha desastrada de João Pereira. Sob o comando de João Pereira, um treinador sem experiência de primeira liga, o Sporting perdeu 8 pontos em 12 possíveis no campeonato, e, assim, a liderança. Ainda perdeu duas vezes na Liga dos Campeões, mas ainda está na luta nas quatro competições..Como é que Varandas assume o que aconteceu? “Olhando para trás, o problema foi que João Pereira não pôde ser João Pereira. (…) Perdemos Ruben Amorim, também não conseguimos ter João Pereira..Inconscientemente, teve de adaptar-se e fazer com que uma máquina montada continuasse a rolar à medida do ex-treinador. Olhando para trás, fosse João Pereira ou outro qualquer, infelizmente iria passar por isto”, disse o presidente do Sporting. Ou seja, foi tudo uma “inevitabilidade”. Uma ideia que deve ter dado um calafrio na espinha ao novo treinador, Rui Borges. .Sobre o facto de o presidente ser o responsável último pela escolha, zero..Pelo contrário. Para Varandas, os maus resultados de João Pereira (não é opinião, é um facto) foram uma consequência de (não tão) estranhos fatores externos. “Consideramos que experienciou verdadeiramente uma lei de Murphy, teve uma onda de lesões que nunca tivemos desde que cheguei a presidente do Sporting e também uma onda de arbitragens infelizes, o que prejudicou a carreira do treinador”. Tradução: João Pereira foi uma escolha certa do presidente, mas foi tramado - não pela inexperiência, não pela incapacidade de adaptar um sistema alheio às suas ideias - pela Lei de Murphy. A seu lado, Rui Borges deve ter ficado “gelado”..Nos últimos 25 anos, só um treinador do Sporting que apanhou uma temporada a meio acabou por se sagrar campeão: Augusto Inácio, em 2000. Pouca lenha para descongelar as aspirações de Rui Borges..Diretor-Adjunto do Diário de Notícias