A falta de tédio está a matar-nos. E à criatividade também

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

Publicado a

A hiper conectividade, o stress crónico e a falta de momentos sem nada que fazer estão a ter efeitos devastadores numa sociedade que continua a ignorar a necessidade de deixar o cérebro repousar.

Há umas semanas, nesta mesma página, Filipe Alves escreveu sobre o fenómeno de ansiedade coletiva que estamos atualmente a viver, alertando para a facilidade com que os discursos extremados e simplistas encontram nela solo fértil para crescer. Uma ansiedade provocada, também, pelo excesso de informação que consumimos diariamente.

Aproveito para retomar o tema e trazer mais alguns números para cima da mesa, numa altura em que dados da OCDE nos mostram que, entre 1990 e 2023, as doenças cardiovasculares, que têm no stress crónico um fator de risco, aumentaram 27%. Números que deviam fazer soar vários alarmes, e que podem ser complementados com outros. A diabetes aumentou 86% no mesmo período, sendo que a multimorbilidade - ou seja, a existência de duas ou mais doenças crónicas numa pessoa-subiu 10 pontos percentuais entre 2017 e 2025.

E embora seja certo que nem todas estas doenças são exclusivamente causa-das por stress, é amplamente reconhecido pela ciência que este é um dos seus principais amplificadores, especialmente em adultos com estilos de vida intensos - ou seja, ao dia de hoje, praticamente todos nós.

Um artigo de 2021 publicado na inquestionável revista científica Nature dava conta de que o stress crónico, ao provocar o aumento de cortisol e catelocaminas, está associado a mecanismos de imunossupressão e aumento de inflamação em doentes oncológicos. E também está amplamente escrita a relação de causalidade entre a hiperestimulação e o stress crónico.

Mas não é só entre os adultos, ou em pessoas com algum tipo de doença, que esta ausência de momentos de tédio deve ser tida em atenção. A forma como vivemos hoje está a ter efeitos extremamente perniciosos na saúde das nossas crianças e adolescentes-e, inevitavelmente, vai condicionar a sua vida adulta.

A hiperestimulação, sobretudo a digital, tem efeitos claros e documentados no cérebro dos mais pequenos, afetando a sua atenção, memória, regulação emocional e maturação do córtex préfrontal.

Os artigos científicos sobre o tema são claros e deixam pouca margem para dúvidas ou questões sobre isto: o cérebro em desenvolvimento - o que acontece até cerca dos 21 anos-não consegue processar estímulos contínuos sem prejuízo funcional.

Que é como quem diz: não é possível estar, a todo o momento a receber e processar informação, com todos os sentidos alerta, sem que isso tenha consequências graves. Entre as mais notórias estão a maior impulsividade, irritabilidade, menor tolerância à frustração, sono agitado e pouco reparador, dificuldades de concentração e de aprendizagem, falhas de memória...

Outra, que não acontece por acaso, é o aumento de problemas relacionados com vício - estamos a educar crianças e jovens em modelos de recompensas constantes, com as notificações das apli-cações, os ecrãs a toda a hora. Em Portugal, mais de 50% dos utilizadores de jogos online têm menos de 35 anos. E apesar de não haver dados desagregados por faixa etária, os vários relatórios do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos permitem verificar que é entre os jovens que mais crescem os novos registos. Em Espanha, um inquérito recente permitiu aferir que 5,2% dos adolescentes já apresentam sinais de adição a videojogos. Por isso, não é de estranhar a abertura de centros para tratar este tipo de dependência (como aquela de que hoje damos conta na página 13).

O tédio, que atualmente está fora de moda - pense na última vez em que não esteve a ver televisão, a receber notificações no seu telefone, a responder a emails, mensagens ou somente a fazer scroll infinito nas redes sociais para não estar "sem nada que fazer" -, é na verdade um estado mental absolutamente essencial para o funcionamento saudável do cérebro. É ele que ativa a chamada Rede de Modo Padrão (ou DMN, na sigla em inglês, de Default Mode Network), que é um conjunto de regiões cerebrais que inclui o córtex pré-frontal medial, o córtex cingulado posterior e o giro angular.

Esta DMN torna-se tão mais ativa quanto menos ativos estiverem os estímulos exteriores. E sabe o que acontece quando ela "acorda"? Aumenta a nossa memória autobiográfica, a simulação de cenários futuros, a autorreflexão e criatividade. É ela que permite que tenhamos ideias, seja através de associações inesperadas ou de soluções espontâneas-aquelas que nos aparecem, tantas vezes, no banho. Porque, lá está, é um momento em que não estamos, por norma, a reagir a outros estímulos. Ou seja, quanto mais ativa a DMN, maior a nossa criatividade. Pense no tédio como uma espécie de tela em branco onde a imaginação floresce, bem como a conexão consigo e o seu estado de espírito.

Ou seja: descansar mais é, na verdade, melhor para a saúde, a criatividade, a memória e a nossa disposição global. O que, inevitavelmente, tem efeitos na nossa vida profissional e pessoal e, por consequência, na sociedade que estamos a construir. Quão pouco entediante é esta ideia?

Diário de Notícias
www.dn.pt