100 dias de Governo. Habituem-se

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Celebram-se agora os 20 anos da mítica série Lost. Foi um tempo em que o mundo se interrogava sobre o que significaria aquela sequência de números, 4, 8, 15, 16, 23, 42. Mas o mais importante é que por ali pululava um personagem misterioso, John Locke (como o filósofo inglês), que para comandar o grupo de sobreviventes naquela ilha afirmava: “Um líder não sabe liderar se não sabe para onde vai.”

A primeira nota é que Luís Montenegro chegou onde muitos anteviam que não chegasse. As sondagens mostravam que o PSD não descolava na oposição, os portugueses diziam que era André Ventura que a comandava, sendo que se apontava o seu prazo de fim de validade para as eleições europeias, se não as ganhasse. Mas tal como com Durão Barroso – também enormemente fustigado numa das profissões mais difíceis do mundo: ser líder da oposição –, o poder caiu-lhe nas mãos. Em 2002, o PSD venceu apertadamente Ferro Rodrigues, depois da saída de cena de António Guterres com o famoso “pântano”; agora, em 2024, também com vitória mínima, Luís Montenegro bate o PS após o parágrafo fatídico e a indecente descoberta de 75 mil euros no gabinete do mais importante colaborador de António Costa. Há, portanto, um mérito evidente no primeiro-ministro: a sua resiliência.

Depois, após os 100 dias do seu exercício, é evidente que o dito “Governo de combate” tem apenas um maestro, Luís Montenegro, e não há estrelas. Há briosos, uns com mais experiência, outros não, executantes, tendo todos a noção de que se algum ministro partir para algum solo desenfreado isso será penalizador para a unidade e bom funcionamento do Governo. A ideia é evitar sobrancerias pueris e perigosas jactâncias, para que não haja a tentação de cair num qualquer “habituem-se”, que penalizou a imagem pública de António Costa e corroeu reputacionalmente a sua maioria absoluta. Por isso se ouve tanta vez do novo Executivo a palavra humildade – vamos ver se não é palavra vã.

Um Governo normal e simples, com um primeiro-ministro e restante elenco governamental normal e simples, em que a técnica de comunicação – que já identifiquei na CNN - para projectar o líder é a de lhe dar o palco nos bons momentos, ser ele a proclamar as medidas mais populares ao lado dos ministros sectoriais e fechar-se em copas nas alturas difíceis ou envoltas em polémica, pois ainda não foi encontrado nenhum antídoto contra a arma comunicacional mais poderosa: o silêncio. E essas acções, com um ou dois percalços iniciais, têm sido bem coordenadas. E não há liderança sem planeamento para controlar a agenda político mediática e a narrativa. Dizia Joan Crawford, na sua inesquecível personagem Vienna do Johnny Guitar, do Nicholas Ray, “um bom pistoleiro não depende de trevos-de-quatro-folhas”.

No entanto, um maestro precisa de bons instrumentistas, e há três ministros que têm de se destacar. Fernando Alexandre e Margarida Blasco estão a conseguir aquilo que todos os Governos pretendem evitar: corporações nas ruas. Ainda não foram todas as exigências dos sindicatos cumpridas, mas dar passos seguros para que professores e polícias estejam mais serenos é importante para não descalibrar o leme. Por último, Rita Júdice. Foi a sua corajosa entrevista a ignição para que Lucília Gago, ao fim de seis anos, saísse de um abismo de silêncio sepulcral que apodreceu a confiança dos portugueses na Justiça, para provar à saciedade a sua leviandade e destempero na relação da PGR com a comunidade. Sim, a ministra estava certa: “ordem na casa”, “liderança”, “saber comunicar” são obrigatórios para quem vier a seguir na PGR. E acrescento uma das peças mais importantes deste tabuleiro: o ministro sem pasta Hugo Soares. É o braço-direito do PM, seu conselheiro e confidente nesta caminhada, e com ele se consegue a ligação Governo-Parlamento-PSD, porque é dos livros que, aquando da passagem do poder, o partido eclipsa-se. Isso não tem acontecido, fruto da política de porta aberta e telemóvel sempre disponível do líder parlamentar.

Luís Montenegro sabe para onde vai. Para o centro. É ali que se ganham eleições, não se pode alienar o centro moderado nem afugentá-lo com tentações de frentismo como os partidos de esquerda estão a pretender enjaular o PS de Pedro Nuno Santos. “Não sou um líder tribal”, afirmava Keir Starmer, do Partido Trabalhista (de esquerda), depois de entrar no 10 de Downing Street. E é assim que um líder de um grande partido de poder se deve comportar. É a partir da dita moderação e racionalidade que se conjuga a gravitas e a imagem de estadista. Essa conversão damascena do “rústico”, mencionado por Marcelo Rebelo de Sousa num jantar que lhe correu mal, no homem de Estado vem com o convívio dos grandes do mundo, como agora na cimeira da NATO, e Luís Montenegro tem vestido bem esse papel para robustecer a sua persona politica.

Sem “casos e casinhos” até ao momento, onde estão os pontos fracos? Saúde, Finanças, concretizar medidas e instabilidade governativa. Na pasta mais complicada, a ministra tem entrado várias vezes de pés juntos e, não tendo traquejo político, já disse coisas num dia que no dia seguinte teve de explicar melhor. Ora, isso significa que comunicou mal e cometeu um erro de percepção nas declarações proferidas. O caso do INEM não é bom para a estabilidade do sector, que é o que mais toca os portugueses, e o plano de emergência apresentado não dá garantias. Nas Finanças há um técnico competente que é um desastre político e já devia ter mais tarimba depois da passagem pelo Parlamento. É o titular desta pasta mais fraco que a direita apresentou ao país e não me parece que melhore.

Luís Montenegro criticou muito o antecessor pelos excessivos power points e medidas anunciadas que não foram concretizadas. No primeiro item, parece que afinal este Governo não segue as pisadas de Jeff Bezos e outros grandes empresários, que aboliram a dita ferramenta para ajudar a entreter um auditório e até abusam dele.

Quanto à concretização das medidas, é preciso tempo, naturalmente, contudo convém acelerar o passo porque Outubro chega depressa. E com isto chegamos ao ponto mais vulnerável do Governo. A AD ganhou por muito pouco e tem dois partidos inimigos disponíveis para dispararem flechas para o seu calcanhar de Aquiles.

Montenegro conta com o colo de Belém, porque não ficava nada bem Marcelo Rebelo de Sousa dissolver uma vez mais a Assembleia da República, mas tem mantido um braço-de-ferro com o PS e vai mantê-lo, porque ninguém deseja eleições, a começar pelos portugueses, pois ninguém quer dar parte de fraco. Se o PM não negociasse, era porque queria dinamitar a maioria existente e partir com ambição para melhorar o resultado nas urnas, só que o ministro mais experiente deste Governo, Castro Almeida, foi claro: “Leiam os meus lábios, não vai haver eleições antecipadas.” Assim sendo, é obrigatório negociar com o PS sem ardis, uma vez que o “não, é não” com o Chega continua em vigor. Acusam o Governo nestes 100 dias de estar em campanha eleitoral, ora um político está sempre em campanha eleitoral, quem não o faz trabalha pouco. Este Governo, pelo menos, está a trabalhar e Luís Montenegro já chegou onde muitos nunca pensaram que chegasse. Habituem-se. 


Consultor de comunicação. O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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