Numa entrevista à EuroNews, já este ano, sobre o facto de não haver uma secretária-geral na história das Nações Unidas, Susana Malcorra afirmou que se tal acontece “não é por falta de escolha, é por falta de vontade”. A antiga ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina, que foi uma das candidatas em 2016, recordou que então “havia uma convicção muito forte de que era altura de uma mulher. A oferta feminina era vasta, diversificada e com antecedentes muito sólidos”.Nomes como Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, ou Irina Bukova, búlgara que chegou a ser secretária-geral da UNESCO, estavam também na corrida ao lugar de topo no sistema onusiano, e chegou mesmo a surgir uma candidatura de última hora de outra búlgara, Cristalina Giorgieva, antiga comissária europeia que hoje é diretora-geral do FMI. No final, ganhou o português António Guterres, antigo primeiro-ministro e conhecedor da máquina da ONU pois fora alto-comissário para os Refugiados.A costa-riquenha Rebeca Grynspan, que foi vice-presidente do seu país, surge agora como uma das favoritas a suceder a Guterres. Na primeira votação dos membros do Conselho de Segurança, os cinco permanentes e com direito de veto mais os dez não-permanentes, Grynspan obteve o melhor resultado. Terá tido dez votos a “encorajar” e um a “desencorajar”. Seguiu-se a antiga ministra dos Negócios Estrangeiros da Guiana, Carolyn Rodrigues-Birkett, com nove votos positivos e dois negativos. O argentino Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de Energia Atómica, surgiu em terceiro lugar, com sete votos positivos e dois negativos.. Os países, nesta fase informal, em que também não é possível ainda perceber o voto dos membros permanentes, podem não se pronunciar. A partir de dado momento, apesar do secretismo, o voto dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, os cinco com direito de veto, será percetível por ser expresso em boletins vermelhos e não em brancos, como agora foram todos os utilizados.Grynspan, de 70 anos, filha de imigrantes judeus polacos, aposta na sua experiência na própria ONU como grande trunfo, e suspendeu o seu atual cargo de secretária-geral da UNCTAD, agência que lida com o comércio internacional dos países em desenvolvimento, para poder concorrer. Foi também secretária-geral Ibero-Americana e, por isso, visitante habitual de Portugal, tendo sido entrevistada pelo DN, nomeadamente quando veio a Lisboa para iniciativas do IPDAL. Numa das conversas com Susana Salvador, em 2014, o título foi “A Ibero-América é um espaço incrivelmente dinâmico”.O facto de vir de um dos países tradicionalmente com melhor imagem da América Latina, uma Costa Rica que abdicou de ter Forças Armadas, pode ser visto como mais um ponto forte.Interessante é a candidata não assentar a sua campanha na condição feminina. Só pede que seja uma corrida sem favorecimento, nem discriminação. “Se pudermos ter um processo que não discrimine as mulheres e que tenhamos capacidade de aceder ao posto de secretaria-geral, demonstraremos ao mundo que podemos viver em pé de igualdade, que temos realmente esperança”, declarou Grynspan à AFP em finais de 2025.Curiosamente, Guterres, que, quando lutava para suceder ao sul-coreano Ban Ki-moon, chegou a brincar com a sua impossibilidade de ser uma mulher para poder corresponder às expectativas, afirmou agora que é hora de as Nações Unidas terem uma mulher na liderança, 81 anos depois da fundação, no final da Segunda Guerra Mundial.As possibilidades de eleição de Grynspan são reforçadas pela tradição de rotatividade do cargo de secretário-geral, pois um latino-americano depois de um europeu, de um asiático e de um africano é bem provável. O único latino-americano secretário-geral da ONU foi o peruano Javier Pérez de Cuellar.Um ponto decisivo é a necessidade de qualquer candidato, homem ou mulher, seja de que continente for, obter a aprovação dos cinco membros permanentes, ou pelo menos evitar o veto de algum deles. Esse será o maior dos desafios para Grynspan, Rodrigues-Birkett ou Grossi. Ou para a antiga presidente chilena, Michelle Bachelet, também candidata, uma antiga alta-comissária para os Direitos Humanos que ficou no quarto lugar na primeira ronda.A votação poderá estender-se até outubro, momento em que o Conselho de Segurança finalmente proporá um nome à Assembleia-Geral, onde estão 193 países.