Francisco Bethencourt, historiador, professor no King’s College de Londres, questionado sobre como nasce a Europa, ou a ideia de Europa, responde: “A ideia de Europa nasce na Grécia, por oposição ao Império Persa. A própria noção de continente é uma invenção: onde começa e acaba a Europa? Onde fica a fronteira com a Ásia? Sempre foi um problema. Foi nesse confronto com os persas que os gregos imaginaram a Europa e a projetaram no mito do rapto de Europa, levada da Ásia Ocidental, da Fenícia.”
Em 2011, na edição especial de aniversário, para assinalar então 147 anos, o DN convidou Nadir Afonso a ilustrar a capa. A crise do euro era o tema dominante, tanto em Portugal, como no resto da Europa, e não faltavam as vozes que adivinhavam o fim da União Europeia, fruto de uma falta de solidariedade entre os membros, em prejuízo dos do Sul, Grécia sobretudo, mas também Portugal. Perante uma sensação de “Europa acossada”, título que dominava a primeira página, o artista interpretou o velho mito do Rapto de Europa, no fundo Zeus a disfarçar-se de touro e a enganar uma jovem princesa fenícia. É um tema que tem aliciado incontáveis artistas ao longo dos séculos, de Ticiano a Matisse.
Um continente que deve o nome a uma princesa da Ásia Ocidental (a Fenícia corresponde em boa medida ao atual Líbano). Um continente de fronteiras indefinidas, como bem destaca Francisco Bethencourt. Vai a Europa de Lisboa a Vladivostoque? Ou acaba nos Urais, que nem sequer são uma cordilheira daquelas que parecem inultrapassáveis? E que dizer do Cáucaso, é Europa ou não? E Chipre?
É evidente que não estamos perante uma mera questão de geografia. A Europa é uma ideia. Há uns anos, quando se discutia sobre as vantagens de ter uma Constituição Europeia, o preâmbulo foi motivo de discórdia. Devia a Europa salientar as suas raízes cristãs? Ou relembrar o vasto legado clássico, da Grécia e de Roma? E qual a importância do Iluminismo, e dos ideais da Revolução Francesa?
Tem uma história complicada o nosso continente. De competição interna, com muitas guerras. E de dominação externa, também com muitas guerras. É aqui que o pós-Segunda Guerra Mundial faz a diferença: apesar da Guerra Fria a dividi-la em blocos ideológicos opostos, a Europa, que se vai libertando do que resta dos impérios, quer quebrar o ciclo de guerras no continente. Isso é evidente nomeadamente na Europa Ocidental, quando Alemanha e França estão juntas em 1957 na criação do que é hoje a União Europeia.
No espaço de 70/80 anos, os dois países tinham estado em guerra três vezes, mas assumiam finalmente uma vontade de lutar contra fatalismos. Itália e os países do Benelux juntaram-se ao ousado projeto. Hoje em vez de seis, são 27 os membros da União Europeia; e já foram 28, antes de o Reino Unido se arrepender de ter entrado no clube (agora, pode estar em vias de se arrepender de ter saído, mas veremos). E são muitos os candidatos. Alguns porque veem a UE como o caminho para a prosperidade, outros porque pensam ser uma proteção contra a Rússia. Seja qual for a motivação, a UE é muito tentadora.
Na segunda-feira, num concerto no Teatro Tivoli, tocou-se a 9.ª de Beethoven. Uma celebração dos 40 anos da adesão de Portugal à então CEE. Foi uma organização dos Institutos Culturais europeus, e também da Embaixada da Irlanda, que assume a presidência rotativa da UE neste segundo semestre de 2026. Talvez o mais marcante da noite, além da beleza da sinfonia que o músico alemão compôs há dois séculos, foi terem subido ao palco, e falado em português, diplomatas da Polónia, da Roménia e da Irlanda. E ainda de Portugal. Todos a celebrar o projeto europeu. Relembro, que os seus países não pertenciam ao núcleo fundador: a Irlanda aderiu em 1973, a Polónia em 2004, a Roménia em 2007. Portugal, claro, em 1986. Quando tudo começou, há quase sete décadas, Portugal estava no Bloco Ocidental, mas era uma ditadura, e Polónia e Roménia estavam do outro lado da Cortina de Ferro. A Irlanda é outra história, aliás talvez a grande história de sucesso na União Europeia.
Os quatro países que mencionei refletem geografias distintas. Mas quando penso na força do projeto europeu, na tentação de ser parte da União Europeia, o que me vem à mente são as bandeiras azuis com as 12 estrelas que vi um dia na Geórgia. Sim, um país do Cáucaso. Apesar de todas as incertezas geopolíticas ali, nomeadamente que relações ter com a Rússia, é evidente para quem visita Tiblíssi que se trata de uma cidade europeia.
Sobre as múltiplas facetas da Europa, e como o resto do mundo a vê, aprende-se muito na entrevista que hoje publicamos com Francisco Bethencourt. Para refletir. Mas além daquilo que foi, e do que é, importa agora muito pensar o que quer ser o tal continente de fronteiras imprecisas.