Este tempo que vivemos, em que todos os acordos de paz são violados no dia a seguir, traz-nos a incómoda lembrança do verão de 1939, mesmo que o não tenhamos vivido. A guerra de todos contra todos, expressão autêntica da nossa natureza, segundo Hobbes, vai-se alargando no mundo, e a progressão dos partidos de extrema-direita, inspirados em Trump e cortejados por Putin, está aí também, mancha a espraiar-se pela Europa e pela América Latina.É que o descontentamento cresce, num momento em que a desigualdade na distribuição da riqueza atinge níveis nunca vistos. Mas a tradicional conversão dos “outros”, sejam os alegados plutocratas judeus dos anos 30, sejam os miseráveis migrantes do nosso tempo, em bodes expiatórios das nossas desgraças é um mecanismo que parece funcionar em todas as épocas.Mas hoje não queria falar das grandes tendências mundiais - já há muitos que o fazem –, mas numa questão mais comezinha, que é a tendência (que se apurou com a pandemia) para fazermos tudo a partir de casa e passarmos a sair muito menos.Talvez isso não se passe com a gente mais jovem, que se reúne à porta dos mil bares da nova Lisboa, porque têm de sair das casas dos pais. Mas a nós, gente de classe média, é-nos oferecido um forte estimulante para ficarmos tranquilos em casa, à espera que o migrante toque à porta para nos trazer a comida ou qualquer outra coisa de que tenhamos necessidade.Os encontros nos cafés não desapareceram, mas perderam a dimensão gregária que em outros tempos fazia nascer as tertúlias. Os cafés deixaram de ser local privilegiado dos encontros intelectuais, que passaram a fazer-se em lançamentos de livros ou em conferências, onde ouvimos os oradores e nos cumprimentamos rapidamente uns aos outros, lamentando o tempo que passou desde a última vez que nos vimos.Comunicamos por e-mails ou WhatsApp, o que nos dispensa de enviarmos cartas ou postais, como os antigos faziam constantemente, às vezes com graça e engenho (estou a ler a correspondência entre Jorge de Sena e José Augusto França, editada em 2007 pela Imprensa Nacional). Talvez se perca a epistolografia como género literário, mas outras consequências graves podem ocorrer, como avisou José Pacheco Pereira. Muitas comunicações oficiais fazem-se hoje por correio eletrónico e é fácil e frequente que acabem por ser apagadas, prejudicando gravemente os arquivos.Quando me reformei, pensei que iria passar a escrever mais e com mais regularidade. Esqueci-me de que escrever é o mais solitário de todos os ofícios e hoje compreendo melhor os que escreviam nos cafés. Não, não era só porque as casas deles eram acanhadas e superlotadas. Era porque precisavam de sentir mais Humanidade à sua volta.De qualquer modo, recuso-me a levar este meu computador, de onde vos escrevo, para a mesa promíscua de um café. Fui apanhado pela tentação da prosa e da digressão e todas as semanas aqui venho discorrer.E assim espero pela escrita por vir, neste verão de tantos descontentamentos...