O terreno onde a mentira pega

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Nas eleições de 6 de Setembro, na Saxónia-Anhalt, a AfD de Ulrich Siegmund fez 43,8% e a CDU caiu para 17,2%. A participação subiu de 60 para quase 77%: não foi a abstenção a decidir, foi mobilização.

O candidato tem 35 anos, TikTok e sorriso permanente, e promete extinguir, mal chegue ao poder, o serviço de informações que classificou aquele ramo do partido como comprovadamente extremista.

Vale a pena parar nesse pormenor, porque é ele que revela a natureza da coisa: primeiro convence-se, depois apaga-se quem mede. E chega-se ali por um caminho que não é feito de mentiras isoladas, mas de um terreno preparado durante anos.

Tenho escrito nas últimas semanas sobre a mensagem e sobre o canal: um texto pró-russo que circula nas redes e a facilidade com que material do mesmo género entra pela porta da frente dos media. Falta o terreno onde a mensagem cai. Nenhuma mensagem pega em terra estéril: a desinformação não cria crenças, encontra-as, e é por isso que a mesma operação funciona num país e falha no vizinho.

Convém então dizer o que é incómodo dos dois lados. As queixas que alimentam este voto são reais. A desindustrialização do Leste alemão foi real. A insegurança em certos bairros é real. O preço da habitação é real. A sensação de não se ser representado é real e fundamentada. Quem responde a isto chamando ignorante a quem se queixa não combate a desinformação, fabrica-lhe clientes.

O populismo entra precisamente aqui, e é preciso nomeá-lo com rigor. Não é uma ideologia, é um método, e não é de direita, nem de esquerda: é o parasita de ambas. É a esperteza a aproveitar-se do desespero, os espertos a explorarem os fracos, prometendo baixar impostos e aumentar subsídios a quem tem pouco, e não entregando nada a não ser ressentimento. Digo-o como homem de direita e conservador, e por isso mesmo: o que me incomoda não é que dispute o meu campo, é que o corrompa.

O populista não inventa a ferida, nomeia-a e depois não a trata, porque tratada deixa de render. Entre a ferida real e a solução que nunca chega abre-se um vazio, e é nesse vazio que a mensagem falsa entra sem esforço, porque já não precisa de convencer ninguém: basta-lhe confirmar o que a pessoa sente. Moscovo não fabricou este descontentamento. Encontrou-o feito e alugou-o.

Uma nota de método, porque também aqui se erra por simetria. As direitas radicais europeias não são um bloco. Na Alemanha e na Áustria há um filão antissemita antigo e uma inclinação para Moscovo, e no caso francês um empréstimo bancário russo que ninguém desmentiu.

Já o Vox é atlantista, apoia a Ucrânia e define-se sobretudo pelo combate ao islamismo político. Metê-los no mesmo saco é cómodo e falso, e quem chama Rússia a tudo acaba por não ver a Rússia em nada.

São fenómenos diferentes, mas partilham o método: uma ferida verdadeira, um intermediário que vive dela sem a tratar e um adversário externo que agradece o serviço sem ter de o pagar.

E ninguém suponha que isto se passa longe. Este terreno cresce onde os partidos com responsabilidade de governo demoram a responder ao que as pessoas sentem - e a diferença entre quem trata um problema e quem o rentabiliza raramente está no programa. Está no método, e nota-se sobretudo na forma como cada um usa o medo. Também cá se vê, à esquerda e à direita, embora hoje mais à direita.

Fica então o que verdadeiramente protege uma democracia. Não são apenas serviços que detectam, redacções que verificam e leitores que duvidam, embora tudo isso seja necessário. É uma política que resolva aquilo que o populista se limita a nomear. Enquanto houver ferida por tratar, na Saxónia-Anhalt ou em qualquer outro lado, haverá quem a explore, e virá sempre alguém de fora oferecer-se para pagar a conta.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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