O tempo dos verões

Paula Marques

Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa

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Pela mão de uma querida amiga, mergulho na leitura de O Livro do Verão, de Tove Jansson. E, de repente, a cumplicidade daquela história entre avó e neta transporta-me para os meus verões em Silgueiros.

O verão devolve-nos memória pelo sabores e aromas. Pela longa viagem, cheia de curvas e enjoos, que vencíamos porque, no fim, nos esperavam, dois meses de uma outra vida.

É o sabor da amora que me devolve os passeios com a avó, as silvas que nos picavam as pernas. São as tardes nas lagoas de água gelada, o cheiro da terra molhada, o milho roubado para assar, a broa de milho branco e as uvas. Correr até à eira, depenicar os cachos, sentir o cheiro da fermentação, ficar com os pés tingidos de roxo.

E os olhos do meu primo… ternos e irrequietos, procuravam talvez uma vida melhor. Foi naquelas eiras que percebi que nem todas as infâncias eram iguais. Enquanto eu podia brincar antes da escola, o Paulo levantava-se de madrugada para trabalhar. A vida não lhe dera as mesmas oportunidades. Percebi então que uma vida feliz não depende apenas da vontade de cada um. Depende também do lugar onde se nasce e das oportunidades que se encontram - ou não.

Hoje escrevo de uma pequena aldeia do interior, entre o litoral e o interior raiano. Reconheço melhor esse outro tempo e esse outro ritmo, a qualidade de vida que aqui encontrei. E também a possibilidade de termos serviços públicos que funcionem: um Serviço Nacional de Saúde com profissionais, médico de família e consultas em tempo útil. Não é uma utopia. É uma possibilidade. E não podemos aceitar que se torne privilégio.

Viver num território de baixa densidade também traz angústias. O medo dos incêndios e a dificuldade de ir de aldeia em aldeia sem uma rede de transportes capaz. Aí, sim, a interioridade pesa. Mas há também o fervilhar cultural das bandas filarmónicas, dos grupos de teatro e das associações. E algo que me emociona: ver crianças nas praças. Crianças com diferentes rostos, línguas e histórias, lembrando-nos que estes territórios podem ter futuro.

Muitas chegaram porque os pais atravessaram oceanos e continentes à procura daquilo que todos procuramos: respirar, trabalhar, construir uma vida melhor. Tal como tantos portugueses fizeram no passado e continuam a fazer. Queremos e precisamos destas pessoas para contrariar o inverno demográfico e manter empresas e serviços. Mas precisamos, sobretudo, de as reconhecer como pessoas com sonhos, novos cidadãos com expectativas e direitos.

E é aqui que a memória dos meus verões se cruza com o presente. Enquanto algumas encontram nestas terras a possibilidade de recomeçar, outras encontram portas fechadas: discriminação, isolamento, dificuldade de aceder a um serviço público. Há os olhares que se desviam e o abuso laboral que transforma vulnerabilidade em exploração.

Volto a Tove Jansson. A literatura devolve-nos ao mundo com outros olhos. Faz-nos regressar às nossas memórias, mas também às vidas que não vivemos e às oportunidades que outros não tiveram.

Se o verão é feito de memórias, pode também ser de futuro. Podemos guardá-lo sem transformar a memória numa fronteira. Podemos querer para quem chega aquilo que desejámos para nós: uma casa, trabalho digno, escola, médico, uma praça cheia de crianças, um território onde seja possível ficar. No fundo, uma vida melhor. Para todos.

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