O sufoco da normalização

Paula Marques

Consultora e formadora Direitos Humanos e Sociais

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Há uma narrativa que se está a instalar perigosamente: a de que é “normal” o garrote nas nossas vidas.

É normal a renda aumentar e o supermercado ficar mais caro. É normal que encher o depósito custe cada vez mais. É normal faltarem professores, médicos e auxiliares ou esperar meses por uma consulta. É normal trabalhar e, no fim do mês, não conseguir respirar.

Mas não, não é normal.

O que se está a normalizar é o sufoco financeiro das famílias. E, pior ainda, a ideia de que cada pessoa deve resolver sozinha o problema: gaste menos, poupe mais, escolha melhor… que se adapte!

Adaptar-se a quê? A rendas que crescem mais depressa do que os salários? A preços que sobem, enquanto as empresas acumulam lucros? A serviços públicos sem profissionais suficientes?

Quando tudo aumenta, menos o rendimento disponível, não estamos perante um problema de “gestão familiar”. Estamos perante uma transferência de rendimento de quem trabalha para quem tem poder sobre preços e mercados.

Veja-se o combustível. Diante da subida dos preços, o Governo responde com apoios e reduções temporárias de impostos. Mas a redução pode ser absorvida pelo preço e os apoios não distinguem quem depende do automóvel para trabalhar, de quem tem capacidade financeira para suportar o aumento. E o combustível mais caro carrega no preço dos alimentos.

Se existem margens de lucro excessivas, porque não equacionar limites e regulação? A resposta tem de ter coragem política: limites aos preços especulativos, transportes adequados aos territórios de baixa densidade, investimento na ferrovia e uma economia menos dependente dos combustíveis fósseis.

Na habitação, o problema é ainda mais brutal. Quantos despejos são necessários para perceber que alguma coisa está profundamente errada?

Uma família pode perder a casa porque a renda dispara, enquanto o imóvel é tratado como ativo financeiro. E há um elefante na sala: as casas vazias.

Continuamos a falar da falta de habitação como se a solução fosse apenas construir mais. Mas precisamos também de saber quem detém os imóveis, quantos estão vazios e há quanto tempo. Fundos imobiliários e grandes proprietários não podem ser tratados como uma família que possui uma segunda casa.

Quando milhares de famílias não conseguem encontrar uma casa que possam pagar, manter imóveis vazios para especulação não é uma fatalidade. É uma escolha.

Temos, portanto, de mudar a conversa sobre o custo de vida.

Quem paga a inflação? Quem beneficia dela? Quem pode aumentar preços? Quem não tem alternativa?

A resposta mostra que não estamos todos no mesmo barco. Há quem seja obrigado a escolher: pagar a renda ou ter comida no frigorífico, pôr combustível no carro ou pagar as contas. E há, por outro lado, quem continue a acumular ativos financeiros e rendimentos.

É esta desigualdade que a narrativa da normalização quer esconder.

Dizer apenas que “é o custo de vida” é mascarar escolhas políticas de fatalidade. Mas os preços são resultado dessas escolhas. As rendas também. A fiscalidade, o investimento público e a regulação dos mercados também.

O problema reside na aceitação de uma sociedade onde se trabalha, se pagam impostos e se cumprem obrigações, mas se vive cada vez com menos condições. E se tem menos esperança numa vida digna e feliz.

Podemos escolher outra coisa: proteger quem trabalha, regular onde o mercado falha, tratar a habitação como direito e garantir serviços públicos com profissionais suficientes.

O que não se pode é continuar a pedir às famílias que se habituem ao sufoco.

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