O silêncio não pode ser a resposta

Cecília Carmo

Subdiretora do Diário de Notícias

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Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção Nacional depois de quase 24 horas de especulação, dúvidas e explicações insuficientes. A ausência dos treinos, a saída do estádio e a crescente inquietação em torno da concentração portuguesa levaram a uma pergunta inevitável: tratava-se apenas do desagrado por não ter jogado frente à Noruega ou existia algo mais profundo?

Jorge Jesus procurou esta quarta-feira desvalorizar o assunto na conferência de imprensa. Negou que houvesse um problema, garantiu que Ronaldo não se tinha recusado a treinar e explicou que tinha conversado com o capitão. Pouco depois, porém, Ronaldo deixou a concentração. Na mensagem publicada nas redes sociais, confirmou a decisão, tomada após falar com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, e prometeu revelar “a verdade” aos portugueses no momento certo.

É precisamente essa promessa que mantém o caso em aberto. Uma coisa é um jogador manifestar a sua discordância em privado; outra é o capitão abandonar um estágio na véspera de um jogo e remeter as explicações para mais tarde. Ronaldo desejou boa sorte à Seleção e aos companheiros, “sem exceção”, mas a frase não apaga o essencial: a equipa ficou exposta a um conflito que não criou e que não controla.

Cristiano Ronaldo tem direito a sentir-se magoado, sobretudo se lhe foi transmitida uma ideia sobre a sua utilização que depois não se concretizou. Ninguém pode ignorar o que deu a Portugal: os golos, as internacionalizações, os títulos e a ambição que ajudou a transformar a exigência em regra.

Mas o respeito pelo passado não pode significar ausência de exigência no presente. Ronaldo está na fase final de uma carreira extraordinária e é agora que também se joga a forma como será recordado. Depois de tanto ter dado ao país, seria profundamente injusto que deixasse na opinião pública a imagem de alguém incapaz de aceitar uma decisão técnica ou de colocar o interesse coletivo acima de uma desilusão pessoal.

Cristiano Ronaldo é o maior símbolo da história recente da Seleção. Mas é, antes de mais, um jogador da Seleção, como são todos os outros. Não há hierarquias quando se trata de respeitar um grupo, um selecionador e uma camisola que pertence a milhões de portugueses. Aos 41 anos, não pode ter lugar garantido, nem pode esperar que cada opção técnica seja ajustada à sua vontade. O capitão deve ser o primeiro a compreender isto — e a dar o exemplo.

Não é, aliás, um episódio inteiramente sem precedente. Em 2011, Ricardo Carvalho abandonou o estágio da Seleção antes de um jogo de qualificação para o Euro-2012, depois de saber que não seria titular frente ao Chipre. O central alegou sentir-se desrespeitado; Paulo Bento classificou a atitude como grave; a Federação acabaria por afastá-lo durante um ano. Foi um caso raro, mas deixou uma lição que continua atual: nenhum jogador, por maior que seja, está acima da equipa nacional.

A comparação não serve para diminuir Ronaldo, nem para antecipar culpas ou castigos antes de se conhecerem todos os factos. Serve para recordar que uma Seleção é uma instituição e não pode ficar refém de silêncios, versões incompletas ou disputas pessoais. Se há um problema entre o capitão e o selecionador, ele deve ser resolvido com frontalidade, mas dentro da casa comum.

Jorge Jesus também tem de assumir a sua parte. Tem toda a legitimidade para decidir quem joga e quem fica no banco. Mas sabia que geria um caso sensível, com um jogador que conhece bem e que continua a ser a principal figura da Seleção. A comunicação, nestas circunstâncias, não é um detalhe: é uma parte essencial da liderança. Se houve mensagens contraditórias ou expectativas criadas que acabaram por não se cumprir, o selecionador deve esclarecê-las.

A Federação Portuguesa de Futebol tem, por sua vez, a obrigação de explicar o que puder sem alimentar o espetáculo. A deslocação de Pedro Proença à Dinamarca demonstrou que o assunto ultrapassou há muito uma simples questão de treino ou de utilização. 

Portugal não ganha nada em transformar Ronaldo num problema, nem em fingir que o problema não existe. Ganha se proteger o legado de quem tanto deu, sem permitir que esse legado seja usado como salvo-conduto para tudo. A verdade que Ronaldo promete contar será importante. Mas, até lá, há uma regra que não pode ser discutida: na Seleção Nacional, Cristiano Ronaldo merece todo o respeito — e deve o mesmo respeito à Seleção.

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