O seu próximo colaborador não é humano. Sabe liderá-lo?

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Imagine a próxima apresentação de resultados da sua empresa. Pode acontecer mais cedo do que pensa. Talvez amanhã. Um analista pergunta ao CEO:

- quantas pessoas trabalham na empresa?

- 300.

- e quantos trabalham realmente para a empresa?

O CEO hesita. Porque a resposta talvez seja 4.700. 300 humanos. 4400 agentes de inteligência artificial a pesquisar mercados, preparar propostas, analisar contratos, responder a clientes, monitorizar equipamentos, escrever código e executar processos enquanto os 300 humanos dormem. A empresa tem 300 empregados. Mas já não tem apenas 300 trabalhadores. Bem-vindos à empresa pós-headcount. Uma empresa cuja capacidade já não pode ser medida apenas pelo número de pessoas que emprega. O headcount continuará a dizer-nos quantas pessoas trabalham numa empresa. Deixará de nos dizer quanto trabalho essa empresa consegue mobilizar. Parece futuro. Não é.

Um estudo da BCG publicado este ano, envolvendo 11.749 trabalhadores em 14 mercados, concluiu que 47% já passam mais tempo a gerir e dirigir inteligência artificial do que a executar o próprio trabalho. Entre os utilizadores regulares, 42% dizem poupar pelo menos um dia de trabalho por semana. Há aqui uma revolução silenciosa. Passámos anos a perguntar: “Quantos empregos vai a IA destruir?” Talvez tenhamos feito a pergunta errada. A pergunta é: “Quantos trabalhadores vai cada trabalhador passar a liderar?”

Imagine um comercial com cinco agentes digitais. Um procura clientes. Outro estuda concorrentes. Outro prepara propostas. Outro acompanha concursos. Outro analisa probabilidades de venda. Ele continua sozinho no organograma. Mas estará realmente sozinho? Ou passou a liderar uma pequena organização dentro da organização? O mesmo acontecerá com engenheiros, médicos, advogados, gestores e investigadores. O trabalho humano desloca-se. De executar para perguntar. De produzir para decidir. De procurar para validar. De fazer para fazer acontecer. E é aqui que surge o verdadeiro problema. Estamos a entregar capacidade de execução a milhões de pessoas sem lhes ensinar liderança.

Na Europa, cerca de um em cada quatro trabalhadores já utiliza IA profissionalmente. Em Portugal, quase 39% das pessoas entre os 16 e os 74 anos utilizaram inteligência artificial generativa em 2025. Mas apenas cerca de 12% das empresas portuguesas com mais de dez trabalhadores utilizavam tecnologias de IA. As pessoas estão a chegar ao futuro antes das empresas. Por isso, precisamos de mudar três coisas:

Primeira: criar uma carta de condução de IA. Ninguém deveria colocar agentes a trabalhar com clientes, contratos ou informação crítica sem saber instruí-los, supervisioná-los e reconhecer quando estão errados.

Segunda: deixar de medir empresas apenas por headcount. Precisamos de medir inteligência mobilizada: capacidade humana mais capacidade digital colocada efetivamente ao serviço da organização.

Terceira: estabelecer uma regra que não admite exceções: a execução pode ser artificial. A responsabilidade tem de continuar humana. Talvez esta seja a verdadeira revolução. A IA não está apenas a substituir tarefas. Está a criar uma nova classe de trabalhadores: pessoas que nunca tiveram ninguém sob a sua responsabilidade e que, de repente, poderão dirigir dezenas de inteligências. E isso muda a própria definição de liderança.

Durante mais de um século perguntámos: quantas pessoas trabalham nesta empresa?

Em breve perguntaremos: quanta inteligência trabalha nesta empresa?

E talvez esse “em breve” também esteja errado.

Talvez não seja em 2030.

Nem em 2028.

Nem no próximo ano.

Talvez seja amanhã.

E quando chegar amanhã, o seu próximo colaborador pode não ter nome, salário, cartão da empresa ou sequer ser humano.

Mas haverá uma coisa que continuará a precisar: um líder.

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