A FIFA tem estado novamente no centro de uma polémica à escala global por ter autorizado – a pedido do presidente Donald Trump – que a seleção americana pudesse utilizar, no jogo contra a Bélgica, um jogador que tinha recebido um cartão vermelho na partida anterior. Mesmo que o tenha feito com recurso a uma interpretação conveniente das regras, a decisão da FIFA é uma canelada nos seus estatutos, uma rasteira à verdade desportiva e, em última análise, uma entrada a pés juntos sobre a sua alegada “independência”. Mas nada tem de surpreendente.Os casos de falta de transparência, dualidade de critérios, manipulação de decisores e até de corrupção têm acompanhado a história recente da organização que regula o futebol mundial. Em 2015, o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos desmantelaram um esquema de corrupção – alegadamente ativo desde 1991 – por meio do qual dirigentes da FIFA receberam, pelo menos, 150 milhões de dólares em subornos e comissões ilegais em troca de direitos de marketing e transmissão televisiva. Na altura, pelo menos sete altos dirigentes da organização foram detidos, naquilo que ficou conhecido como o FIFAgate. O caso acabaria por custar “a cabeça” ao suíço Sepp Blatter, um dos históricos presidentes da entidade.. Mas não é tudo. Nem de perto. A atribuição de, pelo menos, dois Mundiais de Futebol, o de 2018 à Rússia e o de 2022 ao Qatar, esteve sob forte suspeita. Em primeiro lugar devido à histórica falta de transparência da FIFA no processo de tomada de decisões. Mas, sobretudo, porque vários dirigentes foram acusados de ter recebido somas avultadas para votar nos dois países.A própria FIFA percebeu os riscos, mas nem por isso mudou de vida. Em 2012, dois anos depois da escolha de Rússia e Qatar para organizar os Mundiais, a entidade decidiu lavar a imagem ao contratar o procurador americano Michael J. García para investigar o processo de candidaturas. Michael García fez bem o seu trabalho, talvez bem demais. Tão bem que o relatório de 350 páginas - no qual listava todas as deficiências, irregularidades e riscos que encontrou no processo - nunca chegou a público na sua versão completa. À boa maneira da FIFA, a Comissão de Ética do organismo concluiu que não houve irregularidades e impediu a divulgação integral do documento. Foi publicado apenas um resumo, decisão que levou García a demitir-se em protesto.Paralelamente, a FIFA tentou ao longo de anos travar o recurso dos jogadores de futebol às instâncias judiciais nacionais, mesmo em matéria laboral ou fiscal; opôs-se com toda a força às diretivas europeias sobre livre circulação de cidadãos trabalhadores e, ainda hoje, recusa ser regulada por qualquer entidade supranacional. Ou seja, mesmo sendo oficialmente uma associação sem fins lucrativos sob a lei suíça -, mas gerando mais de 12 mil milhões de euros em ciclos comerciais de quatro anos -, a FIFA luta ativamente, e até estatutariamente, para não ser alvo de qualquer escrutínio.."Mesmo sendo uma associação sem fins lucrativos – mas gerando mais de 12 mil milhões de euros em quatro anos – a FIFA luta ativamente, e até estatutariamente, para não ser alvo de qualquer escrutínio.“.Por falar em estatutos. A leitura rápida dos estatutos da FIFA é uma experiência reveladora. No artigo 2.º, sobre os objetivos da organização, surge quase a abrir o desígnio de “organizar as suas próprias competições internacionais”. E depois, duas linhas abaixo, lá está o desígnio de “controlar qualquer tipo de associação de futebol”. E “dar os passos apropriados para impedir violações dos estatutos” da própria FIFA ou “desenhar os regulamentos” e assegurar que são cumpridos.De forma surpreendente (ou talvez nem tanto assim), só lá para o fim da lista aparece como meta “promover a integridade, a ética e o fair play” no futebol. Uma frase que só foi introduzida nos estatutos em 2013, entre dois dos maiores escândalos que a organização já viveu. Às vezes basta mesmo só ler o rótulo.