O rigor alemão e a alma marfinense num jogo em que a história não chega para ganhar

Nuno Braga

Editor do Diário de Notícias

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Há jogos de fase de grupos que cheiram desde logo a oitavos de final antecipados. Este Alemanha–Costa do Marfim é um deles. Duas seleções que entram na segunda jornada com três pontos, golos, confiança e identidades muito diferentes, mas igualmente sedutoras. De um lado, a máquina alemã, quatro vezes campeã do mundo e dona de um currículo que a coloca, ao lado do Brasil, no topo da história do futebol de seleções. Do outro, uma Costa do Marfim que chega aos Estados Unidos com a aura recente de tricampeã africana, depois de conquistar a Taça das Nações em casa, em 2023, frente à Nigéria (a última edição foi ganha já este ano por Marrocos).

Há um paralelismo curioso que torna este duelo ainda mais simbólico: a Alemanha soma três títulos de campeã da Europa, a Costa do Marfim três títulos de campeã de África. É quase como se o jogo pusesse frente a frente dois “reis regionais” em busca de um trono global. A diferença é que os alemães já sabem o caminho até ao topo do mundo, os marfinenses tentam provar, nesta geração, que podem ir além do estatuto de potência continental.

A estreia no Mundial de 2026 foi um cartão de visita eloquente para ambas. A Alemanha atropelou Curaçao por 7-1 em Houston, num daqueles resultados que misturam crueldade competitiva com uma declaração de intenções: esta equipa não veio apenas para limpar a imagem dos últimos anos, veio para reconquistar o medo e o respeito. Florian Wirtz, Jamal Musiala e Kai Havertz, parte de uma frente de ataque móvel e técnica, mostraram por que razão são apontados como principais figuras do novo ciclo alemão. Atrás deles, Kimmich dita o ritmo e Neuer, ainda na convocatória, simboliza a ponte entre a geração campeã de 2014 e a ambição presente.

Do lado marfinense, o 1-0 à custa do Equador foi menos exuberante no marcador, mas não menos impressionante na mensagem: esta Costa do Marfim sabe sofrer, sabe correr e sabe decidir. O golo tardio de Amad Diallo coroou um jogo de alta rotação, em que a capacidade física e a transição rápida fizeram a diferença. No meio-campo, nomes como Franck Kessié, Seko Fofana, Sangaré e no ataque Nicolas Pépé compõem um núcleo que combina potência, qualidade de passe e irreverência. Não é por acaso que esta é apontada como uma das seleções africanas mais perigosas do torneio, jovem, com média de idade a rondar os 25 anos, mas já calejada em finais e ambientes de alta pressão.

Há ainda uma dimensão simbólica que torna o confronto irresistível. Cada vitória africana frente a uma grande potência europeia é lida como mais um capítulo na afirmação global do continente, um prolongamento, em escala planetária, das noites de glória da CAN que a Costa do Marfim tem sabido colecionar. Do lado alemão, cada grande palco é também um teste à narrativa de renascimento: depois das quedas precoces em 2018 e 2022, este grupo sabe que não basta jogar bem, é preciso voltar a ganhar os jogos grandes.

No sábado à noite (21 horas de Portugal continental), não é apenas a liderança do Grupo E que estará em causa; é uma questão de estatuto. A Alemanha joga para reafirmar o seu lugar entre os gigantes, a Costa do Marfim para provar que já não é só uma outsider talentosa, mas sim uma candidata séria a reescrever o mapa do poder no futebol mundial. E é precisamente desse choque entre história feita e história por fazer que nascem os jogos que ficam na memória.

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