Todos os anos, por esta altura, a mesma peça reaparece na imprensa com pequenas variações: como sobreviver à “síndrome pós-férias”, como aproveitar o “efeito reset”, como transformar setembro numa oportunidade de produtividade. As recomendações são, invariavelmente, sensatas: regresso gradual, prioridades redefinidas, escritórios mais inspiradores, manutenção dos hábitos saudáveis adquiridos em Agosto. Parece consensual.
Comecemos pelo termo. Não existe nenhuma entidade clínica chamada síndrome pós-férias. Existe um mal-estar comum, partilhado por milhões de pessoas, a que se decidiu dar forma médica. Ora, dar forma médica a um mal-estar não é um gesto neutro: transforma-o em avaria a corrigir, quando poderia ser mensagem a escutar. Se tenho uma síndrome, o defeito está em mim, e o tratamento pode ser, meramente, logístico: menos reuniões na primeira semana, uma zona de convívio com plantas. Se estou triste por voltar, a pergunta é outra, mais profunda: voltar para onde, exatamente, e por que é que custa tanto?
A psicanálise não tem dicas para oferecer neste debate. Propõe uma grelha de leitura diferente.
Freud descreveu, em 1911, a passagem do princípio do prazer ao princípio da realidade não como renúncia ao prazer, mas como desvio: adia-se a satisfação imediata para garantir outra, mais segura, por caminho mais longo. O que ele viria a acrescentar em 1930, em O Mal-Estar na Civilização, é que esse caminho mais longo tem um preço – o trabalho é, ao mesmo tempo, aquilo que melhor prende o sujeito à realidade, e aquilo que os homens menos amam, por si mesmo.
As férias suspendem, parcialmente, o adiamento: durante duas ou três semanas, a satisfação deixa de precisar de dar a volta. O regresso é o reencontro com o custo do caminho longo. Esse custo estava sempre lá. Estava apenas anestesiado pela rotina.
Nesta medida, o mal-estar de setembro não foi produzido pelas férias. Foi revelado por elas.
Durante 11 meses, a urgência, o ritmo e a repetição funcionam como defesa eficaz. Não há tempo para saber o que se sente, e não saber é, em muitos casos, aquilo que permite continuar. O intervalo retira a defesa. Na segunda-feira do regresso não aparece nada de novo. Aparece o que sempre lá esteve, agora sem barulho por cima. Há pessoas que sentem, mais convictamente, que não suportam o chefe, que já não reconhecem nada de si na função que exercem, que o casamento se aguenta melhor com horários bem definidos, que os filhos têm razão quando reclamam do trabalho que leva para casa. Tudo isto soa a descoberta, mas é antigo... apenas não podia ser sentido, nem pensado. Nenhuma dessas “descobertas” se resolve com uma reintegração progressiva.
Há também um luto verdadeiro, e é habitual desvalorizá-lo. As férias acabam, e o que acaba com elas é real: o tempo próprio, o ritmo escolhido, o contacto com pessoas amadas e, sobretudo, uma maneira de estar no mundo que só existe fora do papel profissional. Quando essa perda se elabora, a tristeza é passageira. Quando não se elabora, instala-se um desinvestimento difuso que não passa em três dias e que não é preguiça, nem falta de organização. Freud deixou-nos, em Luto e Melancolia, a bússola para saber onde estamos: no luto, é o mundo que fica pobre e vazio; na melancolia, é o próprio Eu. A distinção é útil a quem esteja disposto a usá-la.
Nas férias vive-se mais no registo do ser: continuidade, ócio sem finalidade, ninguém a quem corresponder. Ou, no dizer de Winnicott, o informe, o não-integrado: a capacidade de estar sem forma e sem propósito, de onde nasce o viver criativo. O trabalho exige, sobretudo, reagir a solicitações externas.
O mesmo autor chamou falso self à organização defensiva que se ergue quando o gesto espontâneo da criança não encontra resposta e ela aprende a submeter-se ao gesto do Outro. Essa submissão protege o que há de verdadeiro nela, escondendo-o. Não é doença: há um grau de falso self em toda a gente, e é ele que nos faz educados. Mas há vidas em que ele cresce até ocupar quase todo o espaço, e reconhecem-se por um sinal preciso: funcionam enquanto houver a quem corresponder.
O trabalho fornece isso todos os dias. As férias retiram-no. É por isso que o descanso, que devia ser alívio, se torna intolerável para algumas pessoas: sem exigência a que responder, instala-se uma sensação de irrealidade e de futilidade. E o regresso pode ser um alívio verdadeiro, porque repõe a exigência que evita o encontro consigo. Convém reparar tanto em quem não suporta voltar, como em quem não suporta as férias.
O ponto mais delicado é o do imperativo. Já não basta descansar: é preciso descansar bem, aproveitar, voltar renovado, fazer das férias um projeto com resultados visíveis. Isto é exigência interna – supereu – na sua forma mais pura, e produz culpa por um descanso que nunca chega a ser suficiente.
Quando um artigo sobre bem-estar recomenda que se mantenham “os hábitos saudáveis adquiridos durante as férias” para render mais no último trimestre, o descanso foi capturado ao serviço da performance, e deixou de ser descanso. Passou a ser mais uma tarefa. É o corpo que dá a notícia da diferença, mesmo quando o discurso a disfarça.
Nada disto invalida as recomendações práticas. Um regresso gradual é melhor do que um regresso brutal, e é evidente que sim. Existe, contudo, uma diferença entre aliviar um sinal e escutá-lo. A empresa que organiza uma primeira semana suave e continua a produzir, exactamente, o mesmo esgotamento em Novembro, não resolveu coisa nenhuma: anestesiou o alarme.
Não interessa tanto saber como voltar melhor, mas sim saber o que é que este mal-estar diz sobre a vida que levo... e que eu preferia não saber.