O regresso do sarampo aos Estados Unidos da América

Filipe Froes

Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Publicado a

“Um fraco Rei

faz fraca a forte gente.”
 

 Luís Vaz de Camões

O maior poeta da língua portuguesa,

autor de Os Lusíadas e falecido a 10 de junho de 1580,

data hoje celebrada como Dia de Portugal,

de Camões e das Comunidades Portuguesas (c.1524-1580)
 

Dados da universidade norte-americana Johns Hopkins, de 21 de julho, mostram que, nos Estados Unidos da América (EUA), desde o início de 2026, ocorreram 2295 casos de sarampo (measles, em inglês), dos quais mais de 90% em pessoas não-vacinadas. É um recorde que supera os 2289 casos registados em todo o ano de 2025 e apenas ultrapassado pelos 9643 casos de 1991. Nesse ano iniciaram-se campanhas de vacinação em larga escala, que permitiram à Organização Mundial da Saúde declarar o sarampo eliminado nos EUA em 2000, estatuto que poderá ser perdido este ano.

O ressurgimento do sarampo nos EUA reflete a incapacidade de interromper a transmissão desta infeção altamente contagiosa, em resultado da diminuição da cobertura vacinal. A vacinação já vinha a diminuir, mas, durante a Administração Trump e, em particular, com o discurso antivacinas de Robert F. Kennedy Jr., essa redução agravou-se, confirmando que a desinformação é prejudicial.

Um dos argumentos mais utilizados associa, sem fundamento, a vacinação ao desenvolvimento de autismo. Baseia-se num artigo de 1998, envolvendo apenas 12 crianças, considerado uma das maiores fraudes científicas e retirado em 2010. O seu autor, Andrew Wakefield, recebeu cerca de oito vezes o seu salário anual para manipular dados e cometer graves violações éticas, o que levou à perda definitiva da sua licença médica. É como defender o abandono do cinto de segurança com o argumento de que pode causar acidentes de viação. Felizmente, existem estudos com milhões de crianças que confirmam a segurança das vacinas e a ausência de qualquer relação com o autismo.

Contrair sarampo nunca é benéfico. Além de febre, prostração, tosse, conjuntivite e exantema eritematoso maculopapular que desce da cabeça para os membros, estima-se que, por cada 1000 casos, cerca de 10% desenvolvam otite, 5% pneumonia e 1 a 3 possam falecer por complicações respiratórias ou neurológicas.

Uma das complicações mais preocupantes é a destruição das células de memória do sistema imunitário, provocando amnésia imunológica e diminuição das defesas contra microrganismos que já causaram infeção ou para os quais a pessoa foi vacinada.

As implicações para os residentes em Portugal são claras. Perante o risco de entrada de visitantes infetados ou de contágio durante viagens, é essencial manter taxas de vacinação próximas dos 100% e assegurar que todas as pessoas nascidas depois de 1970 tenham duas doses da vacina, administradas idealmente aos 12 meses e aos 5 anos de idade. Nunca se esqueça: a desinformação pode ser fatal.

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