O Automóvel Clube de Portugal está a recolher cinco mil assinaturas para levar à Assembleia Municipal uma pergunta simples: deve Lisboa deixar de autorizar a exploração de trotinetes partilhadas no espaço público quando terminarem as licenças em vigor? Pode discordar-se do proponente, do timing e do instrumento. O que não se pode é fingir que a pergunta nasceu do nada.Nasceu de anos de evidência acumulada e de uma sucessão de soluções intermédias que foram anunciadas, assinadas e esquecidas. Um referendo sobre isto é, no fundo, um atestado de incompetência regulatória passado a Carlos Moedas.Vejamos o passeio, que é onde esta conversa devia ter começado. O modelo obriga a estacionar em pontos definidos, validados por GPS. O resultado vê-se em qualquer esquina: não obstante a zona indicada para estacionar, as trotinetes ficam onde calha. Para quem vai distraído no telemóvel, é um aborrecimento.Para um idoso, para quem empurra um carrinho de bebé, um invisual que se orienta pela bengala e pela linha da fachada, é um obstáculo que ninguém sinalizou e que muda de sítio todos os dias. Um perigo com consequências.Acresce a encenação da fiscalização. Pede-se uma fotografia no fim da viagem e verifica-se uma amostra. Quem estaciona mal sabe que, estatisticamente, não lhe acontece nada. É este o maior problema: as trotinetes são um incómodo público, o incumprimento não tem consequências e a receita dos operadores continua a fluir sem grandes percalços ou chamadas à razão.Um restaurante que ocupe o passeio sem licença é multado no momento.Milhares de trotinetes fazem-no diariamente e a resposta do município é um silêncio administrativo.Em janeiro de 2023, Carlos Moedas assinou com os operadores estacionamentos definidos em sessenta dias, um teto de mil e quinhentas trotinetes por operador e um limite de velocidade na cidade. Admitiu na altura, com franqueza, que não tinha conseguido chegar onde queria. Hoje,o ACP contabiliza mais de seis mil trotinetes, mais de mil e trezentos acidentes em 2024 e mais de cinco mil desde 2019. E seis mil cabe dentro dos tetos acordados. O problema não é o acordo ter sido violado. Pelo contrário. É ter sido cumprido e a cidade continuar assim.Convém recordar quem assinou. Em 2021, o mesmo Moedas transformou, em direto na televisão, 26 mortes de ciclistas em todo o país em 26 mortes nas ciclovias de Lisboa. A segurança rodoviária dava jeito como argumento de campanha. Entretanto, lugares de motociclos e de bicicletas, ou seja de lisboetas, passaram a estacionamento para trotinetes. E ao fim da tarde, junto ao rio, percebe-se qual é a procura real: turistas a estrear o veículo, muitas vezes depois de jantares bem regados, sem capacete e a dois.Paris acabou com o serviço, Bruxelas proibiu-o, Braga e Espinho já não o têm,Copenhaga marcou o fim para 2027. Lisboa ainda vai a tempo de escolher a via difícil: imputar aos operadores o custo do incumprimento dos seus clientes e fiscalizar a sério. Se não o fizer, a pergunta do ACP responde-se sozinha.